a quem foi sem ter ido

Todos os dias amanheciam meio iguais já havia algum tempo desde que você desistiu de ficar. A cama não apertava mais, pássaros trabalhando devotados não me causavam mais nenhum calafrio – sempre o prenúncio de um dia longo te escutando sem dó onde quer que eu fosse –, as primeiras luzes da manhã não queimavam mais meus olhos fundos de fuga.

Os dias corriam quase pacíficos. Não arrumaria a cama e não haveria qualquer sanção matinal, os chinelos me esperando à beira da porta, a camiseta branca com todos os vincos – afinal passar ferro é das coisas mais absurdas, salvo mínimas exceções -, o café descafeinado prometendo que tudo permaneceria igual. Era uma versão quase divertida do paraíso.

O rádio agora está sempre ligado na AM. Sim, na AM. Outro dia até disseram que deixaria de existir. A AM, não o rádio. À espera de alguma notícia de hastear sobrancelha, talvez. Um pouco longe da carnificina do último assassinato a sangue frio, da prisão por engano do “homem de bem”, de um trânsito que nem deveria existir. Um hábito. Cultivado por anos, mas que andou, enquanto você esteve aqui, calado e dentro de uma caixa no canto da despensa cheia de coisas em abandono.

Tinha o horóscopo. O horóscopo era um lugar teu que eu não podia tolerar. Eu descrente, uma preguiça para qualquer ritual que não inventasse algum ganho de tempo, algum ganho medido em grandezas mensuráveis. Ele estava sempre em teu colo visitado pelos olhos castos e um riso de canto de boca que por vezes eu quis desaparecer. Devia ser de vergonha tu manter sempre o papel meio longe de curiosos, a salvo que descobrissem teu defeito cru, grave, oco.

As contas conferidas nos centavos com os olhos caindo sobre o nariz como um personagem intruso de um filme bem ruim desses que a gente deixa só o som dublando “Querida(o), a conta de luz veio 1 dólar e 13 centavos mais cara. Esse mês teremos que apertar os cintos” enquanto vagueia na casa quieta algum domingo à tarde. “apertar os cintos”! Era insuportável.

Tua voz, funcionando assim como as chaves do carcereiro, tua voz ruía as cortinas dos vizinhos, e a cada vez que a janela larga desse sétimo andar impedia ela de deitar em outros ouvidos, eu enxergava multidões de passarinhos se chocando violentos contra o vidro e caindo silentes na calçada. Tua voz ainda me causa absurdo.

Ficasse por aqui arrumando cama, desarrumando sandália, passando os panos de prato, afinando o violão que a gente se prometeu aprender, mas nunca.

Volta, me deixa em paz.

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a redenção de Madalena

borboleta

A plateia lotada ouvia Pedro negar uma, duas, três vezes sua identidade de até meses antes.

– Meu nome é Pedro!

E uma chuva de aleluias, améns e glórias ensopava de abraços os braços pesados de Pedro.

– Meu nome é Pedro!

Ele tinha um rosto de quem havia sofrido muito, corpo grande quase quadrado de fortaleza.

– Meu nome é Pedro!

Os braços longos desajeitados e a postura curvada lhe davam um aspecto de muitos anos mais de vida que aquilo que propagava em testemunho. Parecia fazer muita força pra se manter de pé, trazia no coração uma vontade de ser e fazer parte que muitos duvidavam de sua história repetida à exaustão para o delírio de plateias cada vez maiores.

Ao chegar em casa, Pedro desarma. O peito estufa, as mãos fazem caminhos improváveis no ar, e ele perde um quarto da idade que parece. Segue o corredor sem luz até o quarto, confere tudo impecável, sóbrio e irrepreensível à porta escura descansando a mão na maçaneta marfim, o teto mais uma vez parece força-lo contra o chão, vergando sua vontade de vida. Ele solta a porta grave, olha para o fim do corredor, refaz a postura de saber quem é, e pisa pesado até o fim do caminho onde jaz outra porta. Passa a mão à altura da fechadura à procura da chave. Mas, como quem se nega, não olha pra baixo pra não perceber o óbvio: a coisa de abrir passado não está ao alcance da mão. Ele repete o gesto com a mão procurando a chave uma, duas, três vezes. Encosta a testa na porta, ameaça um choro.

– Não!

Recua em passos firmes alguns metros atrás e corre ombro e corpo pedra à frente. Arrebenta a porta com a vontade de meses. Já dentro do quarto segredo, seus olhos passeiam cheios, enquanto a boca treme e sorri de saudade de si. Suas coisas ali escondidas do mundo. Suas roupas de casa, de rua, de festa e de amar todas lá empoeirando e morrendo todos os dias. Desfila ligeiro até a cômoda de se arrumar, se senta com a certeza de sempre.

– Vai melhorar.

A mão alcança o estojo de arrumar o rosto, e a postura cresce alguns centímetros como já não fosse alto o bastante, Pedro. Até sorri. Uma paz toma as rédeas de suas mãos suadas, vai se preparar para o último golpe.

Rosto pronto, corpo nu, de pé em frente ao espelho, ele é tomado por um horror que assalta a paz de suas mãos, a alegria de seu rosto bom. Está decidido. Não sofre mais um dia. Corre pro banheiro e, atrás dos canos enegrecendo de um vazamento atrás do outro, encontra a antiga navalha de proteção. Caminha devagar para a banheira branca que mal lhe cabe, navalha na mão, olhos vidrados. É o certo a se fazer.

[horas depois, a reestreia]

Pedro sobe ao palco, entra em cena como nunca antes jamais o viram: vestes brancas, um rosto transtornado por algum segredo quase revelado. Se abre. Um coro, que varia entre o choro, o urro, palavras de repreensão e nojo, toma conta do salão. Enquanto Pedro escuta calado seus iguais fugirem porta afora deixando um rastro de pragas e maldição, seu membro, mutilado, pinta o chão do altar. Sua santidade, Pedro, não imaginava que tanto amor se dissiparia tão rápido. À sua frente uma senhora, envolvida em muitos panos e mais cabelos brancos, aos prantos só repete “meu filho! meu filho!”. Mais atrás, camisa abotoada até à forca, linho impecável de não ter aquele dinheiro todo pra uma roupa só, um homem alto, esguio, brilha negro e olhos pesarosos sobre Pedro. É a dose de ternura que Pedro esperava daqueles que até pouco o chamavam de irmão, de milagre. Lá atrás, já à beira da porta, um rosto de traços fortes, vestindo uma roupa quase nenhuma de cores ainda mais, acena o rosto negativamente enquanto enxuga uma lágrima pequena borrando a maquiagem perfeita:

– Madalena…

Era Mariana sofrendo pela amiga desfigurada escorrendo em gotas de sangue e choro silente lá à frente. Foi até o palco, envolveu o corpo nu de Madalena em seus braços no pano manchado de sangue, olhou no rosto já pálido da amiga e sumiram porta afora pra nunca mais.

Homens de bem

mais-um-beco-sem-saida

José tinha essa agonia inventando lonjuras de gente ao lado. Não se deixava aproximar muito, como que temendo o que fossem encontrar dentro dele que ele sequer conhecia. Alguns raros encontros ligeiros aqui e ali, um cumprimento risonho seguido de algum comentário de ironia fina teciam um ar de inteligência inútil, uma sapiência desprezada como referência, mas ainda admirada por muitos.

José arrogava para si a capacidade de viver só. A muito poucos admitia uma pretensa autossuficiência: “me basto”. Mas enquanto tecia os dias inventando esses encontros ao acaso na padaria, no mercado, na praça quase vazia de sombra e gente, escondia-se, na verdade, de si.

Na escola não fizera amigos. Não era escolhido para o futebol do intervalo, apesar de ser o melhor técnico que nenhum time jamais teria. Não era o mais engraçado, nem o mais bonito. Nem fazia ideia do que achavam dele. Quase teve uma namoradinha. Era feliz.

Estudou o mínimo possível, a escola o desaprendia mais do que podia suportar. Assim que conseguiu um trabalho de gente sã, de nove às cinco, salário mais que mínimo, sossegou suas vontades de dominar o mundo, de viajar o mundo, de mudar tudo de errado ao redor.

Pelo menos o de errado do terreno para fora. Construiu sua casa “Com minhas próprias mãos! Do alicerce ao sótão!”, dizia ele, enquanto acentuava a última sílaba de “sótão”, mania de poeta em segredo. Escrevia versos nas ripas do telhado, de modo que jamais fossem lidas antes dele morrer. Gastava dias inteiros procurando e consertando as menores imperfeições. Da instalação elétrica ao telhado à moda antiga, nada lhe escapava.

Numa noite, depois de um passeio discreto à casa de algum caso de afetos bem escondidos, num caminho que fazia sempre, deu de cara com um sujeito que se colocou entre ele e sua casa, a poucos minutos de seus passos largos dali, sem dizer palavra. José ameaçou fazer o caminho de volta, sem entender o que acontecia, mas encontrou outro homem atravessando a passagem do beco. Não teve tempo de dizer nada, José. Pacífico até no olhar, nunca despertara o ódio de ninguém.

– Viadinho… – disse um ódio montado em voz.

– Gosta de pau, é? E desse? – foi quando José levou a primeira paulada. Atingido por trás nas costelas, a dor tamanha estreitou seu redor nos olhos. Os homens gargalhavam.

– Com tanta mulher por aí, rapaz… Um viadinho nessa idade… Vai aprender agora a ser um homem de bem, tá entendendo? – e ele sentiu a segunda pancada. Dessa vez, atingido numa das maçãs do rosto, desacordou. Só voltou a si sentindo sua calça sendo abaixada violentamente por um dos homens, enquanto o outro o segurava pelos braços. Tentou gritar, José, mas num torpor que o impedia, ia perdendo os sentidos quando recebeu um safanão que derrubou sua caneta do bolso da camisa azul de botão, como todas as outras. Único presente de seu pai ausente, a caneta. Ganhou o presente aos sete anos, depois de uma boa nota em português. Nunca entendeu o gesto, era sua obrigação dizer no papel coisas que todos entendessem.

Enquanto percebeu seu corpo contraindo de repulsa e horror, manteve os olhos fixos na sua única memória da infância. Surpreendeu os homens num safanão, última reserva de suas forças e correu para recuperar a caneta. Um deles chutou o objeto para longe. O rosto de José ganhou contornos de monstro, seus pelos arrepiaram feito bicho acuado. Ele alcançou a caneta e perfurou primeiro os olhos e depois a língua de seus carrascos. Se recompôs e assobiou uma melodia doce enquanto limpava a caneta na camisa azul de botão, como todas as outras.

 

 

 

{da coragem e outras invenções}

 

novaimagemLeocaras

O mundo inteiro gritando

– GUERRA!

– MATA!

– ESPANCA!

– ESFOLA!

Maria cantava, cantava, cantava às vezes quieta calada, às vezes de pulmões plenos como que expurgasse o desespero alcançando a garganta seca, os olhos cheios, a vontade plena de seguir serena beirava a queda.

Tinha os olhos cheios de ver fúria e horror. Vaidade e pouca verdade nas bocas de tanta gente sem saber o que fazer com tempo, com a agonia inundação de peitos inquietos, com a vida. Podia ser só isso tanta ameaça e escuro e xingaria cortando o ar.

Crianças cresciam à revelia. E aprendiam.

Aumentava o peso todos os dias ao sair à rua e gente – esgueirando esquinas, dobrando maldizeres, conspirando inquisições – se amontoando rua após outra em afazeres sórdidos. E sentia como se todas essas gentes olhassem para ela. Como se a engolissem com olhos de sangue e língua de sede. Como se a engolissem. Como se soubessem que dentro dela não havia espaço para a fúria da horda perdida, para soluções de faca amolada ensopando a cor da morte.

Aumentava o peso todos os dias sair à rua. Mas Maria seguia como quem não tem escolha, como quem escolhe, como quem recolhe a um canto escuro a covardia ameaçando por as unhas à forra.

Crianças cresciam à revelia. E aprendiam.

Maria cantava cada vez mais alto, cada vez como se a última vez, cada vez como se precisasse que a escutassem do outro lado do futuro que não sabe se vem. E por isso mesmo. E do outro lado das ruas que jamais andaria. Andava sozinha, Maria. Cada vez mais, ela achava.

Como quem desistia de se entregar, como quem negava o que era certo e dado e deposto, decidiu olhar os olhos de cada um, ainda que escutasse uma outra e vez mais também o mundo gritando mais perto

– GUERRA!

– MATA!

– ESPANCA!

– ESFOLA!

Para o espanto da mulher de metro e sessenta, o seu canto era o que causava olhos de medo e espanto e horror e espécie nos olhos das gentes-quase-bestas de conjurar soluções finais. Eram elas que, para seu absurdo, deitavam agora em temor quase pranto de implorar não faça mal. Muitos retornaram, depois de algum acostumar com o canto vento forte trovoada de Maria, ao de sempre

– GUERRA!

– MATA!

– ESPANCA!

– ESFOLA!

Mas Maria começou a ver que haviam, escondidos aqui e ali, atrás de uma porta, olhando de uma janela, misturada às cores de barracas de feira, olhos quase limpos de longe daquela fúria de horda severa. Havia gente que escutava e ressoava seu canto de

– SHHHHHH…

Crianças cresciam à revelia. E aprendiam.

Desmoronando armas gritos choros e exércitos em uma paz de fim de hora. Era ela quem ditava o rumo de seu passo, afinal. Seria ela também quem encontraria outros olhos com plenas coragens de não se abaixarem lassos miúdos inapeláveis, mas curvos certos de alcançarem caminhos outros que não os dados como únicos. Era ela dando adeus à quietude. Era um adeus nascendo no ninho das vontades. Era uma despedida ainda quieta.

Maria cantava, cantava, cantava às vezes quieta calada, às vezes de pulmões plenos como que expurgasse o desespero alcançando a garganta seca, os olhos cheios, a vontade plena de seguir serena beirava a queda.

Mas a coragem… A coragem guiava Maria.