Satélite

  • Era daquelas criaturas de gosto simples, de rotina farta, intransigentemente rejeitava o acaso. O corpo todo gritava o trabalho, olhos alheios, fixos na tv, jamais atentos. Os amigos em alta resolução recebiam afagos touch screen, todos sem voz a piar na tela do celular, ele mesmo sem voz, a piar em outras mãos em cidades nunca visitadas. A escuridão do quarto… o sol, artista teimoso, espreitando a fresca pós-chuva, brilhava em resplendor religioso a exibir um céu rigorosamente de todo azul. Cortina cerrada num gesto que não era raiva, não era nada, se sabia que dia nāo raiava ali. Fones no último volume calavam as crianças que gritavam o feriado, já não tinha os discos de Cartola. A boca, seca de não abrir, apertava os dentes num ranger compulsório, uns diziam mania, ele seguia esmagado. Passeou os olhos nas paredes vazias de Frida e estantes sem Neruda, balançou a cabeça proibindo lembrança, hora do jogo. Olhos em bovina atenção a guiar a bola que rolava em quarenta e duas polegadas de grama brilhante, hora em vez resmungava uma menção de palavrão, o time ia mal. Unida a indignação, era mais um dos 17.000 que gritavam a cabeça do técnico-salvação recém-chegado do exterior, fim de jogo. A noite chegava mansa como um castigo de mãe, trazendo engasgos na garganta, jamais engolidos. Nāo sabia ao certo quando ela havia ido embora, acordou e já não estava ali. Podia ter partido há dias, tinha tempo que a voz larga não anunciava à casa o verão, era tudo inverno sob o sol que abafava janeiro. Arregalou os olhos, esfregando-os incrédulo, ela foi sem aviso levando som, cor e poesia, sem repetir explicação, sem travar batalha quixotesca, o adversário insistia ser moinho, não queria mais o seu ventar. Voou para longe dali levando na bagagem riso, rumo e razão, desde então a vida seguia em ritmo de série concluída e ele sem saber o que estrear.
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a quem foi sem ter ido

Todos os dias amanheciam meio iguais já havia algum tempo desde que você desistiu de ficar. A cama não apertava mais, pássaros trabalhando devotados não me causavam mais nenhum calafrio – sempre o prenúncio de um dia longo te escutando sem dó onde quer que eu fosse –, as primeiras luzes da manhã não queimavam mais meus olhos fundos de fuga.

Os dias corriam quase pacíficos. Não arrumaria a cama e não haveria qualquer sanção matinal, os chinelos me esperando à beira da porta, a camiseta branca com todos os vincos – afinal passar ferro é das coisas mais absurdas, salvo mínimas exceções -, o café descafeinado prometendo que tudo permaneceria igual. Era uma versão quase divertida do paraíso.

O rádio agora está sempre ligado na AM. Sim, na AM. Outro dia até disseram que deixaria de existir. A AM, não o rádio. À espera de alguma notícia de hastear sobrancelha, talvez. Um pouco longe da carnificina do último assassinato a sangue frio, da prisão por engano do “homem de bem”, de um trânsito que nem deveria existir. Um hábito. Cultivado por anos, mas que andou, enquanto você esteve aqui, calado e dentro de uma caixa no canto da despensa cheia de coisas em abandono.

Tinha o horóscopo. O horóscopo era um lugar teu que eu não podia tolerar. Eu descrente, uma preguiça para qualquer ritual que não inventasse algum ganho de tempo, algum ganho medido em grandezas mensuráveis. Ele estava sempre em teu colo visitado pelos olhos castos e um riso de canto de boca que por vezes eu quis desaparecer. Devia ser de vergonha tu manter sempre o papel meio longe de curiosos, a salvo que descobrissem teu defeito cru, grave, oco.

As contas conferidas nos centavos com os olhos caindo sobre o nariz como um personagem intruso de um filme bem ruim desses que a gente deixa só o som dublando “Querida(o), a conta de luz veio 1 dólar e 13 centavos mais cara. Esse mês teremos que apertar os cintos” enquanto vagueia na casa quieta algum domingo à tarde. “apertar os cintos”! Era insuportável.

Tua voz, funcionando assim como as chaves do carcereiro, tua voz ruía as cortinas dos vizinhos, e a cada vez que a janela larga desse sétimo andar impedia ela de deitar em outros ouvidos, eu enxergava multidões de passarinhos se chocando violentos contra o vidro e caindo silentes na calçada. Tua voz ainda me causa absurdo.

Ficasse por aqui arrumando cama, desarrumando sandália, passando os panos de prato, afinando o violão que a gente se prometeu aprender, mas nunca.

Volta, me deixa em paz.

carta para um abandono

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O dia mal amanheceu e eu já me ressentia. Era físico, como quase tudo que me dominava desde que você foi pra onde eu não pudesse alcançar. Ainda lembro tua boca esfriando ameaças de nunca mais. Não eram só ameaças. E eu sentia o travo na língua antes das primeiras luzes. Um amargo diferente de todos. Não fazia mais de uma hora que tinha pegado no sono, fosse mais certo dizer de um breve cochilo intercalado com tua voz repetindo firme tua ausência “nunca mais. Nunca mais”. Nunca mais nenhuma paz em teu colo vago. Nunca mais ver graça em gente junta inventando alguma cor numa tarde morna. Levantei frio, os pés ameaçaram não alcançar o chão. Ruins de ameaça, ao contrário dos teus dentes que trincavam certeza. As pernas caminharam apesar de mim. Até a pia, o espelho evitando os olhos de sempre, depois até a cozinha.

Das coisas de antes, nunca consegui me desfazer das duas colheres de café. Uma minha outra tua. Nunca. Talvez isso também nunca mais. Lembraria de que era um só até antes da água chegar ao fogo, mas logo ali na esquina já teria sido consumido por antes e depois e as colheres cairiam como antes. E eu riria de mim, e talvez alguma lágrima atrasada mancharia minha vergonha mais um dia. Não hoje. Talvez nunca mais. Uma colher. Só uma. O café coado direto para a xícara como uma segunda afirmação de “hoje em diante”. Dessas resoluções inúteis que não se mostra para ninguém por medo do ridículo.

Já sentado absorvido pelos caminhos que a fumaça fazia da boca da porcelana barata até algum lugar de desaparecer, leio em voz alta “tua boca planta em mim imorredouros futuros. toda a nossa prece é essa promessa de agora. agora é nosso refúgio das pragas, da cidade, dos planos cheios de piedade”. O primeiro presente que me deu tinha escrito isso algum poema anônimo teu. E as letras perdendo a cor em perfeita sintonia com nossa sorte. Feito prova de nunca mais. As eternidades encontrando espaço em cada diálogo menino. Como quando eu bêbado começava a falar de todas as vezes em que te disse “não” sem nenhuma razão para dizer, como fosse uma doença grave da qual me restava a confissão depois, o estrago feito na hora sem saída. Sem jeito. Brincava de inventar bicho na fumaça já rara do café. Talvez tenha dado três goles, a xícara ainda na metade.

Banho. Pressa. Atraso. Toda a rotina que você conheceu e praguejou mesmo sabendo não havia cura. O suor escorrendo até o ponto de ônibus em frente à casa. Um bom dia unilateral. Fumaça, buzinas, “filho da puta!”. Na chegada ao emprego dos sonhos, gente rodeada de gente se enxergando entre mesas, telefones tocando altos, e sorrisos quase constantes de alguma droga boa ou pior, as angústias amontoadas em cada tapete com alguma bobagem escrita como se fosse a nova melhor última coisa de agora: “haja luz! e fez-se a saudade” e outras piores. Cada um tapete a prova da mediocridade de gente criativa que só compra orgânicos. Choveu. Ana foi chorar no banheiro. De novo. Nos últimos meses, a acompanhava só para ter um jeito de chorar também, que era seco. Os olhos inchados mais que os dela. Patético.

– El patron tá te chamando lá na sala dele.

A frase dita com um veneno espesso escorrendo de dentes manchados de cigarro e café ruim. O bafo avisava de longe. Não choraria com Ana hoje. Afiei o lápis e fui. No terceiro grito golpeei uma, duas, cinco vezes o braço diante da mesa. E os olhos estatelados prometendo desmaio. Não lembro mais se conseguiu dizer algo antes de eu ir embora, o canalha.

Sem pressa, chamei alguns taxis mas acenava desistindo só para ver quem me xingava com mais ódio. A brincadeira desbotou. Trânsito. Rádio. Suor.

Girei a chave e peguei agulha e a linha de sutura. O braço com o sangue seco com o cheiro que me lembrava você. Na cozinha, o café não havia esfriado, assim me contou a fumaça.

Chão de maravilhas

chao-de-maravilhasO ano chegava ao fim. Ano de fardo pesado, quantas vezes pensou não mais suportar? Nenhuma resolução cumprida: o amor não fez dele morada, aquela barriguinha não desapareceu e aumentou, os trabalhos da faculdade teimavam em atrasar, não tinha quem desse emprego e emprego já era artigo raro,  a vida eram golpes insistentes. Agosto não passara. Andou pelas ruas quentes de muitos carros, sombra humana só a sua, se é que era homem, já não sentia. A boca seca, o cabelo mal cortado grudando na barba que há muito não fazia, o suor persistente unia ele, cabelo e barba em uma coisa só, que se afigurava desavisadamente na tarde sem vento. Peregrinava em busca de sombra, água e alguém com quem conversar, tudo em vão. A boca seca, o fôlego findando, pensou na praça, sempre vazia  com suas árvores estranhas, invasoras de sertões, talvez único lugar que servia de caminho pra brisa fresca e onde um bebedouro sem manutenção matava a sede dos raros passantes desprovidos de nojo. Rumou para lá, pelo menos assento, água e sombra iria ter.

Era Dezembro, chorava um silêncio agarrada ao travesseiro. Não havia mundo longe dele nos últimos dias. O aperto era tal que o forro já exibia pequenos rasgos de muito gasto. O rosto mirando a janela com um sol e um verde e um dia que não deveriam ser. Pensou num banho que aliviasse o calor do corpo e levasse o ranço do desprezo impregnado em sua pele, tomou. O frescor da água, o chamariz da janela, aquele sol num céu que de tão azul doía, a cidade que não aprendera a falar ardia. Sua casa uma das poucas numa praça que não tinha ninguém, sempre vazia  com suas árvores estranhas, invasoras de sertões, talvez único lugar que servia de caminho pra brisa fresca, vestiu qualquer coisa e desceu.

Era uma tarde quente e estranhamente bonita de verde e azul a contrastar com o bafo iminente do verão, bebeu a água e mirou as pequenas flores vermelhas que salpicavam o chão de pedras portuguesas e assim deixou-se ficar.

– Maravilhas!

Levantou a cabeça sem entender a voz que cortava o silencio e o parar da tarde. Eram coxas em um vestido puído, sorriso farto e olhos aparentemente mareados de algum choro recente e um cabelo maravilhosamente emaranhado em um ser atrevido, que parecia julgar seu torpor pelas pequenas flores.

– O que disse?

– As flores que você tá olhando, se chamam Maravilhas.

Sorriu ante a afirmação. Chão de Maravilhas, maravilhosa aparição. Está próximo o ano bom.

confissão e graça

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— tem cerimônia mais não, dona nicinha. – ele quase implorava com a boca escancarando um querer constrangido por anos de olhares nas frestas dos dias, em passeios vespertinos fingindo o acaso de passar perto onde quer que fosse o caminho dela.

nicinha colhia na face as cores fortes de sempre, que se acentuavam, ouvindo o destrambelho daquele homem feito besta agora em desespero de confissão. era possível notar algum suor inventando caminho aos lados de suas orelhas, escorrendo sem pudor seu pescoço colo com pressa.

— venha, se achegue – ele salivava -, que pra ti eu já sou porta sem trinco mesmo, que tu é esse diabo diferente, eu sei… – nicinha arregalou os olhos, quase escândalo, ameaçando franzir testa e sumir de debaixo das ventas do homem, que àquela altura beirava um precipício sem volta ao lugar logo à vista onde não se recobra juízo, razão ou caminho – mas num é qualquer diabo! – se remendava – nem é lúcifer, nem é belzebu, nem é satanás, não. é um outro que faz o mundo deslembrar deles tudo! – e nicinha amansava, toda sorriso mudo.

daí foi questão de segundo pra ganhar ar de fera, arrancando a camisa e a calça e se arrumando em cima do transtornado, enquanto arquejava fogosa. ele ali, deposto de sua voz e domínio, serrando o gradeado da vida. ela assim, inteira descoberta, feito céu em sereno, à espera de mais folia. um e outro, vergonha nenhuma e o amanhecer engolindo o quarto sem trégua, torcidos.

um café preto e a prosa mole, o sol meio empinado e as carnes já moídas vendo tudo em cor de brasa, o chão cheirando à flor de tangerina. o homem pensou alto:

— ô, alegria que dói…

— é, nada fica sem dor, que o tempo inventou a lonjura… – nicinha acomodou.

e os dois, arriados, desfeitos do resto do mundo, adoeceram sem conserto. um bicho só, dois corpos gastos.

 

* sem leo coutinho não sairia. 

último dia de par

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– Amo você. – eu te disse, e soube já ali, teus olhos desgarrados de boca e suores matinais, era o começo do fim.

[ “todas as garantias na vida já nascem de quatro” foi a primeira vez que você me chamou a atenção. eu ri quieto e quis fingir que entendi perfeitamente o que você disse, pra parecer que a gente já tinha muito em comum que qualquer outro par que ainda nem era.
tua mão escorreu meu rosto cansado de sempre, de nunca mais, de não saber. “eu quis morrer” tu me disse um dia como se não tivesse pena de seu amor de antes. eu fiz de conta que entendia tua vontade de contar tudo, mas desapareci um pouco ali e sufoquei o terror de um dia seria capaz de causar o mesmo dano. não haveria abrigo perpétuo pra mim em você.
esses carinhos me acuaram sempre em cantos que parece jamais aprenderia a escapar. o tempo um fim de festa que não descansa, sempre apontando pra um depois que eu não queria que viesse: você chegaria trocando as pernas, alguma garrafa na mão e sorriria pra me acalmar. eu era um covarde. fingia que não me comia as costas te ver assim uma vez e mais outra, sem reclamar.
eu sabia, confesso, desde o início não duraria. não pude evitar. desespero e luzes fracas e você dizendo que a vida era só isso mesmo e mais meia dúzia de mentirinhas quase inofensivas. ]

– Você me distraiu. – tu me disse uma última voz arrastando a mala pra longe de mim. Nunca doeu tanto teus olhos em fuga. Nunca doeu tanto te ver fazendo força pra me deixar a sós com meus pedaços. E eu quis morrer.

amores, calçadas e fim

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O sol queimou-lhe a cara pontualmente, às seis e vinte da manhã, rotina de incômodo despertar. Olhou para o lado encarando aquela figura, sombra de um amor há muito esquecido, aquela silhueta lhe dava tranquilidade. De certa forma sua insuportável presença trazia-lhe a lembrança do que um dia foi e fazia vir à superfície o calor daqueles ditosos dias, hoje escondidos sob muitas camadas blindadas de rancor e ressentimento. Levantou sem pressa, arrastando-se ainda um pouco tonto ao fétido banheiro que lhe servia para o asseio diário. O mar estava de ressaca. Encarou-se no espelho, o estranho que insistia em mirar-lhe não lhe devolvera os traços serenos e displicentes de boêmio poeta.  Lavou-se sem cuidado, vestiu algo que não lhe caia bem, penteou-se mecanicamente, vomitou a pesarosa angústia verde, escovou-se e abriu a porta para aquilo que chamava “suplício dos viventes”. Uma rotina demasiadamente estúpida de trabalho e convenções das quais não era adepto, mas a qual era fatalmente obrigado a aceitar. Ela já estava de pé, deixando-se ocupar entre o café e o pão. A beijou porque se fazia necessário, não queria café. Pegou a pasta marrom, pôs os sapatos e invadiu o mundo. Manhã atordoadamente quente, uma ratazana na calçada suspendeu seu passo ao correr para um bueiro, olhou para o animal com inveja, tão simples se fazer invisível enquanto que para ele a insignificância era cada vez mais notória. Chegou ao serviço pontualmente atrasado, o cheiro de perfume barato que emanava da recepcionista trazia-lhe a ânsia do vomito contido e aquela cabeleira loira de raiz escura, aqueles lábios mal pintados de carmim que outrora desejara avidamente possuir, tornaram-se repulsivamente incômodos.  O dia arrastar-se-ia beneditinamente. A espera por uma mensagem, um telefonema, uma carta Dela que jamais chegaria tornava tudo mais difícil, tão mais fácil seria se tudo realmente tivesse findado. Dedicava-se com afinco aos papéis sem o prazer que em outra vida lhe reservavam. Os acertos burocráticos não tinham sequer uma gota do doce suor  da qual pingara sua poesia, poesia que Ela levou embalada no riso e no pranto gasto, toda sua incapacidade Lhe era devida e a bruxa sequer tomara conhecimento. Voltava para casa sem pressa, uma caminhada ladeada por carros, mendigos e camelôs a espalhar tristeza e poluição, o dia terminara cinza. Espanto foi o seu ao abrir a porta e encontrar a casa vazia, ficou paspalhamente boquiaberto ao dar-se conta que aquele ser quase inanimado sumira levando a mobília. Deixara apenas um bilhete de garatujas quase indecifráveis: “ Não se pode competir com uma lembrança”. “Não se pode competir com uma lembrança”, ela disse.  Um problema, uma solução. Uma pipa menina sambava pela janela, quis alcançá-la. Deixou-se deslizar gentilmente pelo parapeito, quem sabe não conseguiria pegar a pipa rubra.
O sangue que agora escorre pela calçada estampará o jornal de amanhã, não se pode competir com uma lembrança, quem sabe então se Ela…