Altar de vontade

imageAs noites que seguiam não eram as mesmas. Curtas as conversas de fogo sem fim, iniciadas no fogo do aplicativo. Ela, logo ela, que criticava o uso do cupido eletrônico pelas amigas, cheia de falsos pudores e recatos.
– Mas parece um cardápio eletrônico, onde você é a comida!
– Isso! Essa é a ideia, Lu! Se tudo der certo, você é comida!
Riso geral. As meninas estavam eufóricas!
– Anda, Lu! Todas nós aqui baixamos, só você não. Não é justo!
– E se aparece um psicopata? O risco é grande, você não conhece quem está do outro lado!
– E quem realmente conhecemos? Márcio foi meu namorado por 4 anos e quando eu resolvi terminar, o que ele me deixou foi a cara roxa e…
Silêncio. Rememoraram a dor que era das 4. Não. Era de todas. O machismo dói.
Como o exemplo doído de Maria Laura não tinha contra-argumento, Ana Lu declarou-se vencida:
– Tá bom, gente. Eu baixo esse negócio!
Aplausos, brindes comemorativos, era a festa para as futuras possibilidades. Baixou o aplicativo ali mesmo, na mesa do bar.
– Pronto. O que eu faço agora?
– Você não faz nada! Nós fazemos.
Disse Paula, enquanto rapidamente roubava o celular da amiga.
– Devolve! Não vale!
– Você é muito lerda! Vamos dar uma chance ao amor por você!
– Vamos ver o que temos aqui… olhem, esse combina com ela?
– Não, cara de coxinha!
– Esse tem cara de ser a favor da redução da maioridade penal.
– Passa também! Esse outro aí tem cara de “bandido bom é bandido morto”.
Ficaram nessa, conjecturando as preferências ideológicas dos rapazes, manifestando sua reprovação na tela.
– Olhem esse aqui! Lindo!
– Perfeito, Lu! Que tu acha?
– Não sei… Esse também não parece “top”?
– Nada disso! Ele tem cara de linha de frente das manifestações! Vou até pedir mais uma cerveja pra comemorar esse achado!
Deu match! A partir dali eram minutos conversando milhares de “não sei o quê”, enquanto ela se dividia entre celular, cerveja e amigas. Era tanto em comum, já estava encantada! Planejavam um futuro encontro e se apropriavam mais um do outro. Foi Maria Laura quem quebrou o clima, incisiva como sempre.
– Oh, Lu, tu já tá marcando encontro sem pedir o mais importante?
– O que é “o mais importante”?
Coro uníssono de fazer inveja às meninas cantoras do Carmo, de tamanha a afinação:
– Um nude!
Riram! O bar inteiro olhava pra elas, rindo também. Um rapaz meio bebado puxou o coro:
– Manda nude, manda nude!
Logo eram todos gritando. Ela, ante tanta solicitação, engoliu um gole de cerveja e pediu : “Manda um nude”, assim mesmo, seca, direta. Silêncio. As 4 olhavam para o celular como quem espera um milagre dos céus. Nada. Os minutos pareciam horas a se arrastar.
– Ai, acho que assustei ele.
– Se ele é de se intimidar com algo tão bobo assim, não era pra você. Não serve.
– Verdade. Olha, é assim mesmo. Nem sempre dá certo.
A fala cortada pelo som do celular. O coração das quatro quase caem na mesa. Baixaram a foto que demorou muitíssimo a carregar, culpa da internet. Eis que surge o tão esperado pedido. Silêncio e contemplação. Quem falou foi Maria Laura:
– Amiga, ele vale MUITO a pena.

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joão era grave

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joão sofria de uma tristeza rasa havia alguns dias. todas as manhãs, a mesma ferida. o mesmo rosto magro e marcado que o espelho impõe. o mesmo corpo, essa jaula.

joão se escondia atrás de postes.

de postes e de pessoas, estrangulador de ternuras. e não sabia que todo mundo era assim, que não há um que não fale, olhe e seja visto através de suas próprias grades.

joão era grave.

tinha o sertão adormecido na goela. queria saber um pranto que o limpasse de si, que fizesse a terra parar de ter sede.

joão não se via no espelho.

seus olhos eram nublados de muito tempo. o que ele via era um borrão fazendo caretas. joão conhecia a linguagem de flores e pedras. o sol dentro da tarde alumiava suas funduras. tinha esperança, a seca ia embora. teimoso, apenas resistia ao fim de ser verde.

uma tarde quase morta, tomou banho e saiu. ainda podia respirar. quis sorrir grande. talvez assim a vida aprendesse.

Olha a chuva

Cada estação tem seu cheiro e suas cores. Isso é diferente onde o tempo corre impreciso. Os limites são imperceptíveis e, constante, ignorados pela natureza. Mania besta de contar o tempo.

Naquele dia, notou que a florada de jambo e o cheiro da quarana apontavam os prenúncios do verão. Era inverno. Sempre foi assim nos muitos verões que viu. Chuva fina, algum frio e muitos dias de nuvem e nevoeiro. Mas esse seria o primeiro. Tinha sol. Era o primeiro caminhado em par. Martelando esse pensamento, a tarde vencia e ainda não marcava doze o relógio.

O país se desmontava. Que bom vou trabalhar mais dias e em horas por dia. Nenhuma notícia boa chegava em dias. A praia tava cheia e a cerveja custava menos, tava quente. O freezer era bom. Era desesperança, desassossego, infinitos… olha lá um arco-íris.

Desistindo do mundo, ou de pelo menos entendê-lo, sentou em um banco de madeira embaixo duma árvore e esperou. E escreveu planos pro futuro. Tudo virava silhuetas em luz plena. Coisas tão cheias de dimensões viravam planos com o lusco-fusco que torna tudo em mistério. Concretos.

O amor chegaria em minutos pra juntos se afastarem dali. Passaram-se anos.

O sol se deitava e a primeira estrela, que é um planeta, reinava no céu junto com uma lua crescente que parecia um sorriso. A noite era sem lua. Não era noite ainda.

Deram fortes as mãos. Dias bonitos viriam.

Olha a chuva!

Acabar: começo

quarto

“{João amanheceu arma em punho}

Batidas à porta.
João suou frios passados.
Morreram de bater.”

Escreveu só pra ver a poeira da Remington de sessenta e poucos anos atravessar seus olhos descobrindo o pouco do verde que lhe sobra na pintura ferida. O quarto contava bem a história do ano: móveis gastos, sujeira antiga escondida em cada canto, papeis amassados de histórias que jamais nasceriam, uma umidade que ameaçava a garganta dele, roupas de bebê do chão de sua infância pequena, poucos livros, muitos discos, insetos já familiares.

“Revoluções aconteceram por muito menos que isso”. Repetiu ao fim de cada tragédia cotidiana. Seus olhos marejaram de janeiro a abril. Secaram de maio a agosto. Viraram duas pedras de arder de setembro ao fim do ano. Significava nada. Nada esse tempo de virar calendário. Mas cedia a pequenos rituais. Em segredo, claro. Limpava o quarto, comprava uma fita nova para a máquina, uma agulha nova para a radiola amontoada em cadeiras que perderam a função de sentar, se vestia como em qualquer tempo ordinário.

Se olhou no espelho como se tentasse ouvir alguma coisa dentro. Teve vergonha quando uma lágrima escorreu cadente, era um choro de alívio. Um choro de saber que nunca mais um tempo desse. Ficaria pra trás seus dias mornos fingindo escrever a próxima obra-prima que ninguém leria. Ficaria pra trás suas promessas não cumpridas, todas imperdoáveis. Se olhou no espelho como se tentasse ouvir alguma coisa dentro. Sorriu largo. Um riso triste de nunca mais os afetos desse tempo, nunca mais alguns quase amigos ignorando suas tentativas. Nunca mais.

O quarto já limpo, os olhos sujos de poeiras antigas, as mãos calejadas de alguns móveis fora de lugar, nenhuma calma pequena pra acomodar seus braços. A máquina seguia lá, empoeirada, e a tinta gasta como prova de suas tentativas. Era a prova de que algumas coisas não mudam, ainda que sacudidas e espanadas. Sorriu outra vez. Era um riso de aceitar. A porta bateu.

Saiu pra passear. Sentou-se pra escrever. Era tempo de acabar: começo.

Chão de maravilhas

chao-de-maravilhasO ano chegava ao fim. Ano de fardo pesado, quantas vezes pensou não mais suportar? Nenhuma resolução cumprida: o amor não fez dele morada, aquela barriguinha não desapareceu e aumentou, os trabalhos da faculdade teimavam em atrasar, não tinha quem desse emprego e emprego já era artigo raro,  a vida eram golpes insistentes. Agosto não passara. Andou pelas ruas quentes de muitos carros, sombra humana só a sua, se é que era homem, já não sentia. A boca seca, o cabelo mal cortado grudando na barba que há muito não fazia, o suor persistente unia ele, cabelo e barba em uma coisa só, que se afigurava desavisadamente na tarde sem vento. Peregrinava em busca de sombra, água e alguém com quem conversar, tudo em vão. A boca seca, o fôlego findando, pensou na praça, sempre vazia  com suas árvores estranhas, invasoras de sertões, talvez único lugar que servia de caminho pra brisa fresca e onde um bebedouro sem manutenção matava a sede dos raros passantes desprovidos de nojo. Rumou para lá, pelo menos assento, água e sombra iria ter.

Era Dezembro, chorava um silêncio agarrada ao travesseiro. Não havia mundo longe dele nos últimos dias. O aperto era tal que o forro já exibia pequenos rasgos de muito gasto. O rosto mirando a janela com um sol e um verde e um dia que não deveriam ser. Pensou num banho que aliviasse o calor do corpo e levasse o ranço do desprezo impregnado em sua pele, tomou. O frescor da água, o chamariz da janela, aquele sol num céu que de tão azul doía, a cidade que não aprendera a falar ardia. Sua casa uma das poucas numa praça que não tinha ninguém, sempre vazia  com suas árvores estranhas, invasoras de sertões, talvez único lugar que servia de caminho pra brisa fresca, vestiu qualquer coisa e desceu.

Era uma tarde quente e estranhamente bonita de verde e azul a contrastar com o bafo iminente do verão, bebeu a água e mirou as pequenas flores vermelhas que salpicavam o chão de pedras portuguesas e assim deixou-se ficar.

– Maravilhas!

Levantou a cabeça sem entender a voz que cortava o silencio e o parar da tarde. Eram coxas em um vestido puído, sorriso farto e olhos aparentemente mareados de algum choro recente e um cabelo maravilhosamente emaranhado em um ser atrevido, que parecia julgar seu torpor pelas pequenas flores.

– O que disse?

– As flores que você tá olhando, se chamam Maravilhas.

Sorriu ante a afirmação. Chão de Maravilhas, maravilhosa aparição. Está próximo o ano bom.

adeus, eu

Atravessei a passarela sem olhar para os lados. Nem pra baixo. Não era medo de altura ou vertigem. A hora avançava, a metrópole desconhecida e as baforadas de cigarro cortavam. Mais até que o pouco usual frio em outubro. Em minha terra de prédios parcos já era verão. Avancei por mais umas ruas. Era o sentido onde o mapa apontava. Noroeste. Sempre fui péssimo em ler mapas. Mas a intuição também apontava pra lá. Arrastava minha mala com as roupas separadas cuidadosamente para as ocasiões. E toda vez que vislumbrava o prédio que deveria ficar, ele se misturava em outros prédios num labirinto suspenso pra caminhar eternidades.

Nesses minutos perdidos eu já não sabia o que vestir no dia seguinte. Eu não sabia o que comeria. Eu sabia que não voltaria pra casa. Isso me libertava.

Sentei no beiral da calçada. A desordem da cidade aos poucos em mim. Já não sentia frio. Eu era um grande cigarro sendo tragado. Apertado entre os dedos de uma mulher com o esmalte descascado. Era curvas no ar em brasa e cinza.
Era a bituca no chão. Era a bituca que me comia os sentidos e a razão. Sob as curvas de uma coragem passageira, peguei o celular e escrevi pra Maria: “cheguei, a entrevista de emprego tá confirmada pras nove. Mês que vem mando sua passagem.”
Rodei mais algumas ruas até me achar de vez. Troquei poucas palavras, o erre demora mais aqui. Tomei banho, sopa e deitei a roupa em um cabide como talismã numa caixa de veludo. Despertador para as seis.
Acordei suando tanto quanto no dia que conheci Maria. Escrevi longo recado: “Volto nunca mais, Maria. Te amo até quando existir palavra”. Subi para o terraço indicado. A entrevista ficaria sem entrevistado. Marchei calado, um riso pendurado nos olhos, nenhum na boca.

Nesses minutos achados eu já não sabia o que vestir no dia seguinte. Eu sabia que não comeria. Eu sabia que não voltaria pra casa. Isso me libertava.

dia de nascer {gente maior que lugar}

cactus

Era dia de trovejos firmes na vila que começava e acabava na mesma rua. As casinhas ladeadas todas de cores fortes, os telhados baixos, em vez de números os nomes de cada última criança nascida ali. Lado a lado, João, Ana, Manoel, Menina, Pedro, Filomena, Francisca, cada um com um garrancho diferente escorrendo um tanto de branco pintura abaixo das paredes todas irregulares como que acompanhassem a irregularidade das chuvas do lugar de estar. Uma casa branca, a mais miúda, a mais calada, nome nenhum escrito na parede, rodeada de gente à frente e os olhos de pressa e alegria incontida da última casa ali ter agora dado gente.

– É homem.

– É não.

– É macho.

– É não.

– É, sim, que não tem nem jeito de chuva, nem vento de assobio. Só pode ser macho.

Passava logo ali abeirando a caatinga dona Nora, a mulher que ninguém se atrevia a tratar com a menor deseducação. Nora, diziam, tinha ido estudar muito nova na cidade, e quando voltou, professora e “roupas de homem”, teria endoidado, por motivos de viver enfiada no mato. Poucas palavras trocava com gente, poucas vezes se avizinhava de casa nascendo pessoa porque desde ali seu interesse por quem falava era senão nenhum, quase nada. Mas vinha Nora, no que os olhos da multidão de uns dez se virou para ela, meio agonia, meio curiosos, boca nenhuma arriscando bom dia. Os olhos de Nora levantaram num de repente e miraram a casa branca que, em vez de tinta, a única cor que recebia era a de uma trepadeira que ninguém nunca havia visto ali e que subia pelo telhado se misturando com as ripas de sustentar o teto. Era sabido que a casa um dia dormiu branca e acordou com a planta já toda crescida. Não havia ninguém que negasse, ninguém que provasse a história, mas como tudo por ali a verdade inventada se perpetuava. Os olhos de Nora levantaram num de repente e miraram a casa branca, a gente toda por ali abaixou a cabeça e esperou alguma praga, coisa que gente doida gosta de fazer. Nora, caçadora de plantas, veio atropelando o mato à altura das canelas num passo forte como fosse derrubar o que o caminho mostrasse à frente. As bocas todas escancaradas de vê-la de tão perto por motivos que não um de dar cura a algum muito doente quase morto acompanharam a passagem de Nora até o batente da porta. Nora passou a mão na trepadeira como uma conversa, arrancou um punhado de folhas e manchou a porta da casa com um nome. Saiu na mesma pressa que chegou, a bota levantando poeira ainda seguida pelos olhos desgarrados dos rostos de todos. Murmurou:

– É fêmea.

Quando Nora finalmente desapareceu de volta na caatinga, os olhos buscaram o nome escrito garranchos firmes na parede branca num verde escuro escorrendo feito sangue:

MARIA.