Kaio Cruz

DO FORRÓ, DO PRIMEIRO LICOR DE JENIPAPO E DE JOAZEIRINHO

     [21 de Junho de 2015, 02:50 de domingo. Festejo de São João, distrito de Joazeirinho, Conceição do Coité, nordeste da Bahia. No encéfalo de Pedro Oliveira Souza, 18 anos, o álcool do copo de licor agia.]

A cada gole que tomo, tenho a sensação que estou me descamando em direção ao núcleo central. Cada gole é uma lâmina a menos no meu envoltório.

Óbvio que estou – o que poderia ser chamado de – bêbado, afinal, vejamos os sinais e sintomas: estou com marcha desalinhada e fala diluída, a memória está um pouco falha e o pudor, o comedimento, está mais reduzido. Mas, no fundo, apesar de estar de fato bêbado, a minha sanidade, vívida, quase flamejante, incendiária, está mais desperta que nunca. Circundado por um salpicado de sintomas alcoólicos, o meu verdadeiro Pedro observa, de olhos abertos, mágicos, o mundo e meu existir no mundo (observo-o através deste único meio possível para fazê-lo: eu mesmo – nós somos o nosso único meio). Sem pudor algum por estar sendo apocalíptico, tonto, olho à volta.

Em silêncio, desfruto prazeroso do único e vivo recurso que possuo na vida: eu mesmo. Mergulho fundo em mim, e vivo na pele a larga ideia, o largo sentimento de que eu sou intransferível! Eu sou meu! Comigo nasceu e comigo vai morrer – sou eu. É essa mesma intransferibilidade que me permite viver tão intensamente o momento em que estou escorado no mourão no meio da multidão (de estimados 3.500 forrozeiros). Meus amigos me chamam para ir embora e eu, com sorriso na boca da alma, voo sobre os muitos outros, mesmo à distância, na festa; como um passarinho [talvez o clássico beija-flor que suga de caule em caule o néctar vital que nutre seu acelerado metabolismo de atualidade], pouso aqui e acolá e encarno-me em suas conversas, nos seus trejeitos, nos seus modos de falar, de tocar e de ser. Um a um, fui possuindo o estado de ser e vivendo por um instante suas vidas ao som do forró – que se abrira como aleluia e nem mais como forró soava. Em segredo testemunho seus movimentos rápidos das mãos – os quais passavam despercebidos mesmo pelos próprios donos (um coçar de nuca, um passar no queixo, um dedo no bolso esquerdo, um pinçar de copo) –, dos olhares, dos passos. Viro multidão.

É também com essa mesma intransferibilidade que experimento o desempenho de minha marcha desalinhada pelas pedras do calçamento à medida que me dirijo com meus amigos para o carro. É também com essa mesma intransferibilidade que, surpreso e absorto, testemunho os fogos de artifício no céu. Luzes coreografadas acendiam-se raras no ar alto, e podiam unir meu senso de maravilha às alturas do céu escuro. Por meio delas, observando-as apenas, eu elevei-me e explodi lá em cima. Amarelo e azul. E também elas, junto a mim, explodiram ali, no pavimento, em meio aos carros da rua, em direção ao carro de Rafa. Houve uma mágica. Eu era fogos de artifício, tal a integridade do instante. E os fogos de artifício me eram. Como o previsto, Rafa virou-se e disse para me apressar. Assim o fiz. E cheguei ao carro. Até então eu permanecia mudo. Mas o álcool, ladrão sorrateiro, esgueirou-se entre os obstáculos construídos por mim (as travas que me delimitam socialmente do mundo) e furtou-me o pudor. Não tive escolha. Abri a boca e falei coisas que bêbados falam, passando sobre meu medo de não ser entendido. Como esperava, não fui. Fiz foi incomodar os mais sóbrios, eu que fraco optara por podar-me e assim não ser um estorvo. O leve desconforto de Rafa (legível pelo aumento súbito do volume do som do carro) não foi o suficiente. Continuei a falar, corajoso. Só não falei a Grande Loucura que poderia tirar-me toda a credibilidade junto aos meus desatentos ouvintes (a loucura do óbvio insosso que está a frente de todos e que todos ignoram; dizer o óbvio exige um elaborado caminho de convencimento; chegar diretamente a ele é doidice). Calei-me.

E com essa mesma intransferibilidade, convicto, conciso (como alguém que está certo e sem dúvidas acerca da vida), cruzei os braços e pernas no banco do fundo e observei as casas e a vegetação passarem feito um borrão na noite através da janela do carro à medida que Rafa acelerava. Cactos, palmeiras, mangueiras, uns raros flamboiãs, catinguerias, brasileirinhos, umbuzeiros, mato farto e alto agradecido pela chuva recente. O vento frio de Junho corria – eu estava em êxtase.

(CONTINUA…)

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