Ayla Cedraz – A mancha

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Ele era como a dor na gengiva ferida que a unha insiste em pressionar. Não como a gengiva ferida, não como a unha; como a dor. Saiu ciente de onde ia, quem veria, o que diria. Imprevistos são para loucos; gente que gosta de sofrer e de se colocar nas piores situações. Não ele. Era nítido por inteiro, e até no andar se percebia a convicção irreversível de quem solta um grito num velório. Essa nitidez era imprescindível; todos precisam saber, à primeira vista, o quanto ele era normal e homogêneo às multidões. Apesar disso, calhava de ser, não sentir, aquela dor de gengiva machucada e pressionada por uma unha.

Chegou poucos minutos antes ou depois. Não chegava adiantado, atrasado ou na hora. Chegava. As pessoas andavam decididas como ele pelo ambiente, como se uma seta marcada no chão as direcionasse o tempo todo. Ele também era direcionado. Habilidoso, esperou o momento certo para atravessar o fluxo de pessoas, conduzindo com maestria seu corpo alto e magro como um poste, não esbarrando em ninguém, cumprimentando os amigos com alegria precisa evidenciada na perfeita desenvoltura ao erguer a mão para lhes afagar os ombros; era lindo. Amavam uns aos outros na medida em que se viam.

A partir de agora, contudo, o sistema entra em colapso. As regras de sua vida não incluíam imprevistos, de modo que os próximos acontecimentos não podem ser a ele creditados. De modo algum. Embora sem dúvida fosse dele o reflexo parado no espelho do corredor, o que se segue é apenas obra de um corpo estranho, dessa vez em forma de uma mancha espalhafatosamente amarela, exibindo-se no branco virginal do colarinho, oriunda de um pão com ovo ingerido mais cedo. O peso de existir em público de forma individual imediatamente se abateu sobre seus ombros, levando-o a ter de arrastar-se ao banheiro, já doente, já enojado com a visão da gema do ovo penetrando a brancura delicada de seu colarinho, e emanando tal atrocidade por onde passou até então, como um peido trancado num quarto sem janelas.

Quase derrubou um homem decidido que saía do banheiro. Tirou a camiseta e, debruçado na pia, iniciou um processo delicado para remover a mancha com o mínimo de prejuízos à sua volta para casa. No fim, a água só conseguiu deixar o círculo amarelo-vivo uma deformidade opaca, mas ainda ameaçadora. Vestiu-se novamente e, sentindo-se ainda como que em dívida com o universo, suspirou, inquieto preocupado. E agora? Com certeza o veriam ao sair. Estremecia só em pensar no incômodo que deveria ter causado a todos quando, sem saber, entrou exibindo a mancha.

Olhou-se no espelho mais uma vez. Respirou fundo. Saiu. Eu nem sei o seu nome. Ninguém sabe. Ninguém sabe que ele existe. Só eu, e só porque escrevo.

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