Maria?

Maria? encurvada pelo tempo como quem aguenta o mundo nos ombros. Lirismo tolo, quem conhece Maria? sabe que é de carregar água, trouxa de roupa e filhos entre a cabeça e braços, estes que agora se orquestram sincrônicos em oração.

Maria? não sabia ao certo porque rezava. Não dependia mais de chuva para viver. Todo mês o dinheiro chegava ao banco e, depois de algumas horas-humilhação em filas, repousava escondido entre as mamas corroídas pelo tempo e de lá só saía para quitar a pequena dívida no mercado.

Maria? não rezava pelos filhos. Um a um, dos nove, tombaram ao caminho: varíola, sarampo, disputa de faca, jura de sangue, jura de vingança, de parto, de parto [de novo] e dois nem vingaram depois de nascidos, minguados que eram.

Maria? não rezava pelos homens. Os teve. Três homens-momento. Flerte. Calor. Gozo. Barriga. Descida pro Sul com promessas “eu volto pra te buscar”. Outro não soube o nome. O terceiro ela tratou de esquecer.

Ali Maria? descansava a vida. Murmurava reza. Fazia o gesto da cruz. Não é o que se espera de quem a idade avançou a ponto de ser beira-fim? Mas Maria? não se importava. Seguia pedindo em suas rezas-nadas em grande fervor-fé. Olhando a Santa. Ombros caídos dos pesos água-trouxa-filhos-homens vazios. Sem manto, este cobria Maria.

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em frente a porta

sustentei meus olhos na altura dos teus. neles escrevi a mensagem mais clara que conseguia. te pedia desesperadamente para ir, depois friamente, depois nada mais. você compreendeu. nada precisava ser dito. as coisas pareciam fáceis. o adeus estava tão claro que não precisava de nada mais.

as coisas pareciam fáceis.

você negava. digladiava. tergiversava.

duvidou e disse que eu era um estranho enquanto se jogava em mim como um réptil nojento que me cravou as unhas quando menos esperava.

não senti dor. te achava tão tola enquanto chorava. passava as mãos em meus cabelos, descia como carinho como agressão. você era ruína. e cada vez mais tola. cheirando a mim, minhas coisas, eu só me afastava de você prostrada aos pés da cama.

sobre o velho tapete empoeirado. eu era quase pena. você não era mais tola. era amorfa como o sentimento que restara. que em tu agora era ira. me xingava de brocha, de bicha e que ia por fogo na casa.

era pra sair humilhado. você vingada. mas sabia que você me amava. era minha.

saí.

parei em frente à porta.

seu nome essa prece

marina,

é sábado, cinco e meia da manhã. não durmo bem desde segunda. a chuva que cai na cidade é fria, fria, e não há nada a meu lado, nada a que se agarrar no cômodo vazio que você deixou. da varanda, queima o nono cigarro de insônia em minha boca e, pasme, o vizinho do 402 ainda nem reclamou. acho que eu o beijaria, se ele aparecesse aqui agora. mas não vejo sequer um carro lá fora, nem cachorro, nem mendigo. nenhum sinal de vida. parece que o mundo foi farrear longe, hoje, e não me convidou. fiquei. bebendo o café aguado que o silêncio coou. e não há mesmo nada a dizer. e ninguém diz mesmo nada, por milhas e milhas. ninguém. a não ser meu sangue, o ir e vir de meu sangue em fôlego ansioso, vibrando seu nome. marina. nunca lhe disse como acho lindo seu nome. soaria bobo; perdia a coragem. sim, sempre fui um fraco. não servia nem de segurar as canecas de casa, lembra? lembra-se dos cacos no chão, marina? lembra-se de algo que fomos? quando eu afinal fechar os olhos, espero que você ressurja das minhas pálpebras cansadas.

jogos de invenção para chuva

aquela hora, pedro pudesse morrer, não ligava nem um pingo. era bonito ver o quente que aparecia nos olhos de ana quando a boca dela sorria. as carnes pulsando como fossem de passarinho, sonhejava penhascos, vinham-lhe fomes, arrepios de grandes tamanhos. perto de ana, ficava era todo mole, tantos detalhes, tantas grandes miudezas, que não se tinha nem onde acostumar a vista direito, tudo o que é firme degelando no horizonte ferido, ardente interminável. pois digo e redigo: pudesse morrer, parecia nada não se importar, não. cheiro de mulher bordado na sua pele, calores que trocavam à beira d’água, molhaduras, sujices boas sem fim. a trégua, a entrega e o disfarce – os dois mesmo estilhaçados, prenhes de sons que não entendiam.

ele queria saber dizer qualquer coisa, captar o impercebido do momento. não sabia. coração bruto batedor por debaixo de tudo, pensou que a perfeição seria talvez o não falar nenhum e deixar aquietadas as palavras. descobriu como toda alegria, no mesmo do instante, abre saudade doída. e assim que ana ia embora, o que ficava mais, nele, como agrado em lembrança, era a voz, uma voz que teimava assentar. ouvido dele retorcia a voz dela, que, mesmo no fim de tanta fogueira, o amor inchava, de empapar todas as folhagens, pedro ambicionando de carregar ana nos braços, beijar, as várias demais vezes, sempre, com um realce de vagareza, tanto desmentindo pressa.

e, afinal, ela se foi. não se pode explicar como nem por quê. ora a luz de um grande prazer, ora o clarão de um farol ofendido. a vida tem suas canalhices.

[sobre dizer e ouvir]

A verdade foi lançada tão dura que causou estranheza como ela entrou macia. Como a faca entra numa laranja e se rompe a girar até cair na lixeira. E caiu. Se fez planta enraizada em campo seco que há muito nada dava e as raízes corriam o solo em busca de água. O tanto que fosse para ser sorvida. E assim sentada meio com as pernas arqueando um W, sorvia cada palavra dita. Ouviu, mas o que mais chocou foi a força sentida em algo que surgiu em simples mexer músculos da boca, e se esquece de mexer o resto do corpo, a bola dos olhos, todos quietos. ES.TA.TE.LA.DOS sob a força do que se dizia. Se inquietou ao lembrar que esforço foi só entoar cada sílaba. Cada ditongo. Cada vogal que sai fácil com a boca aberta e consoantes que dobram a língua, esbarram em dentes e fogem. Nada mais mexeu. EN.TO.A.DO. Parecia o biquinho de quem aprende francês. EN.SAI.A.DO. Parecia não. Impossível se articular tão bem palavras. E quanto peso de se ouvir. De travar o rosto ao chupar o pigarro do caju. Aquilo que seria resto. Uma força de fazer ficar no chão, como amarrado, gravidade agindo. Músculos medidos em toneladas. Foram necessárias gruas para erguer. Colocar no ponto mais alto e largar até afundar o asfalto e algum transeunte que passava na calçada e correu desesperadamente para o lado errado. ES.MA.GA.DO. Meio inverossímil, eis que ouviu o primeiro “te amo”.

Altar de vontade

imageAs noites que seguiam não eram as mesmas. Curtas as conversas de fogo sem fim, iniciadas no fogo do aplicativo. Ela, logo ela, que criticava o uso do cupido eletrônico pelas amigas, cheia de falsos pudores e recatos.
– Mas parece um cardápio eletrônico, onde você é a comida!
– Isso! Essa é a ideia, Lu! Se tudo der certo, você é comida!
Riso geral. As meninas estavam eufóricas!
– Anda, Lu! Todas nós aqui baixamos, só você não. Não é justo!
– E se aparece um psicopata? O risco é grande, você não conhece quem está do outro lado!
– E quem realmente conhecemos? Márcio foi meu namorado por 4 anos e quando eu resolvi terminar, o que ele me deixou foi a cara roxa e…
Silêncio. Rememoraram a dor que era das 4. Não. Era de todas. O machismo dói.
Como o exemplo doído de Maria Laura não tinha contra-argumento, Ana Lu declarou-se vencida:
– Tá bom, gente. Eu baixo esse negócio!
Aplausos, brindes comemorativos, era a festa para as futuras possibilidades. Baixou o aplicativo ali mesmo, na mesa do bar.
– Pronto. O que eu faço agora?
– Você não faz nada! Nós fazemos.
Disse Paula, enquanto rapidamente roubava o celular da amiga.
– Devolve! Não vale!
– Você é muito lerda! Vamos dar uma chance ao amor por você!
– Vamos ver o que temos aqui… olhem, esse combina com ela?
– Não, cara de coxinha!
– Esse tem cara de ser a favor da redução da maioridade penal.
– Passa também! Esse outro aí tem cara de “bandido bom é bandido morto”.
Ficaram nessa, conjecturando as preferências ideológicas dos rapazes, manifestando sua reprovação na tela.
– Olhem esse aqui! Lindo!
– Perfeito, Lu! Que tu acha?
– Não sei… Esse também não parece “top”?
– Nada disso! Ele tem cara de linha de frente das manifestações! Vou até pedir mais uma cerveja pra comemorar esse achado!
Deu match! A partir dali eram minutos conversando milhares de “não sei o quê”, enquanto ela se dividia entre celular, cerveja e amigas. Era tanto em comum, já estava encantada! Planejavam um futuro encontro e se apropriavam mais um do outro. Foi Maria Laura quem quebrou o clima, incisiva como sempre.
– Oh, Lu, tu já tá marcando encontro sem pedir o mais importante?
– O que é “o mais importante”?
Coro uníssono de fazer inveja às meninas cantoras do Carmo, de tamanha a afinação:
– Um nude!
Riram! O bar inteiro olhava pra elas, rindo também. Um rapaz meio bebado puxou o coro:
– Manda nude, manda nude!
Logo eram todos gritando. Ela, ante tanta solicitação, engoliu um gole de cerveja e pediu : “Manda um nude”, assim mesmo, seca, direta. Silêncio. As 4 olhavam para o celular como quem espera um milagre dos céus. Nada. Os minutos pareciam horas a se arrastar.
– Ai, acho que assustei ele.
– Se ele é de se intimidar com algo tão bobo assim, não era pra você. Não serve.
– Verdade. Olha, é assim mesmo. Nem sempre dá certo.
A fala cortada pelo som do celular. O coração das quatro quase caem na mesa. Baixaram a foto que demorou muitíssimo a carregar, culpa da internet. Eis que surge o tão esperado pedido. Silêncio e contemplação. Quem falou foi Maria Laura:
– Amiga, ele vale MUITO a pena.

joão era grave

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joão sofria de uma tristeza rasa havia alguns dias. todas as manhãs, a mesma ferida. o mesmo rosto magro e marcado que o espelho impõe. o mesmo corpo, essa jaula.

joão se escondia atrás de postes.

de postes e de pessoas, estrangulador de ternuras. e não sabia que todo mundo era assim, que não há um que não fale, olhe e seja visto através de suas próprias grades.

joão era grave.

tinha o sertão adormecido na goela. queria saber um pranto que o limpasse de si, que fizesse a terra parar de ter sede.

joão não se via no espelho.

seus olhos eram nublados de muito tempo. o que ele via era um borrão fazendo caretas. joão conhecia a linguagem de flores e pedras. o sol dentro da tarde alumiava suas funduras. tinha esperança, a seca ia embora. teimoso, apenas resistia ao fim de ser verde.

uma tarde quase morta, tomou banho e saiu. ainda podia respirar. quis sorrir grande. talvez assim a vida aprendesse.