seu nome essa prece

marina,

é sábado, cinco e meia da manhã. não durmo bem desde segunda. a chuva que cai na cidade é fria, fria, e não há nada a meu lado, nada a que se agarrar no cômodo vazio que você deixou. da varanda, queima o nono cigarro de insônia em minha boca e, pasme, o vizinho do 402 ainda nem reclamou. acho que eu o beijaria, se ele aparecesse aqui agora. mas não vejo sequer um carro lá fora, nem cachorro, nem mendigo. nenhum sinal de vida. parece que o mundo foi farrear longe, hoje, e não me convidou. fiquei. bebendo o café aguado que o silêncio coou. e não há mesmo nada a dizer. e ninguém diz mesmo nada, por milhas e milhas. ninguém. a não ser meu sangue, o ir e vir de meu sangue em fôlego ansioso, vibrando seu nome. marina. nunca lhe disse como acho lindo seu nome. soaria bobo; perdia a coragem. sim, sempre fui um fraco. não servia nem de segurar as canecas de casa, lembra? lembra-se dos cacos no chão, marina? lembra-se de algo que fomos? quando eu afinal fechar os olhos, espero que você ressurja das minhas pálpebras cansadas.

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jogos de invenção para chuva

aquela hora, pedro pudesse morrer, não ligava nem um pingo. era bonito ver o quente que aparecia nos olhos de ana quando a boca dela sorria. as carnes pulsando como fossem de passarinho, sonhejava penhascos, vinham-lhe fomes, arrepios de grandes tamanhos. perto de ana, ficava era todo mole, tantos detalhes, tantas grandes miudezas, que não se tinha nem onde acostumar a vista direito, tudo o que é firme degelando no horizonte ferido, ardente interminável. pois digo e redigo: pudesse morrer, parecia nada não se importar, não. cheiro de mulher bordado na sua pele, calores que trocavam à beira d’água, molhaduras, sujices boas sem fim. a trégua, a entrega e o disfarce – os dois mesmo estilhaçados, prenhes de sons que não entendiam.

ele queria saber dizer qualquer coisa, captar o impercebido do momento. não sabia. coração bruto batedor por debaixo de tudo, pensou que a perfeição seria talvez o não falar nenhum e deixar aquietadas as palavras. descobriu como toda alegria, no mesmo do instante, abre saudade doída. e assim que ana ia embora, o que ficava mais, nele, como agrado em lembrança, era a voz, uma voz que teimava assentar. ouvido dele retorcia a voz dela, que, mesmo no fim de tanta fogueira, o amor inchava, de empapar todas as folhagens, pedro ambicionando de carregar ana nos braços, beijar, as várias demais vezes, sempre, com um realce de vagareza, tanto desmentindo pressa.

e, afinal, ela se foi. não se pode explicar como nem por quê. ora a luz de um grande prazer, ora o clarão de um farol ofendido. a vida tem suas canalhices.

dá teu pulo, santo

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agitando a cabeça sobre o travesseiro, leo abre a boca, range os dentes, estala a língua e bufa. o rosto faz-se chocho. deitado sobre o dorso, seminu, pernas encolhidas, sente arderem as tripas. um aperto o invade tem dois dias. dona eulina, que não lhe sai de perto, diz, sufocando a calada do tempo:

– sabe, meu filho, deus tem dois grandes sacos a seu lado. um à direita, outro à esquerda. e com eles, joga tranquilo a sorte dos homens. no saco da direita, guarda o nome de todos os viventes da terra. no da esquerda, acomoda o sem-número de atribulações que aflige as criaturas…

– e daí? – ele retruca, impaciente.

– e daí que, para distribuí-los, deus mergulha a mão direita no saco dos nomes e dele retira, ao acaso, um papelzinho que entrega a um dos santos auxiliares. este o desenrola, lê o nome ali escrito e o anuncia. então o senhor mergulha a mão esquerda no saco das misérias, retira um papel igual ao primeiro e também o entrega a um de seus assistentes, que lhe revela o conteúdo, silabando: dor-de-cu. deus ri, o sorteado sente uma pontada terrível no cu e se contorce, imediatamente. assim começam as nossas doenças sem explicação nem causa aparente. chamam a isso de destino.

ao que leo, hoje aos 30, mas que desde os 10 não crê em deus, tampouco em santo, responde:

– balela, vó. balela…

– não te digo nada, menino… se não sabe, é assim já da criação do mundo, deus entretendo-se neste jogo: castigar e premiar a gente. dá catapora a um, dá sarampo a outro… às vezes, como os governos dos povos, concede algum benefício. mas, como acontece aqui na terra, lá no alto a sorte também não é cega.

– como assim?

– os santos, para atenderem os seus devotos, manipulam o sorteio, ué. trocam os papeizinhos e, na leitura, os nomes. os mais sabidos até metem as mãos nos sacos, mexem, remexem, fazem a festa. seja a cura possível ou não, quem não nos atende cai em descrédito, assim ordenaram.

– e deus não desconfia disso?

– veja bem, meu filho, deus sabe de todas as coisas… – respondeu, antes de voltar o silêncio.

naquela noite, assim que dona eulina adormeceu, leo falou com santo expedito:

– dá teu pulo, santo, que da cama eu quero sair!

e acordou sarado, uma semana depois, quando já nem se lembrava de desgraça nenhuma.

* eco dos contos “sacos de deus” e “o rato”, de iberê camargo.

joão era grave

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joão sofria de uma tristeza rasa havia alguns dias. todas as manhãs, a mesma ferida. o mesmo rosto magro e marcado que o espelho impõe. o mesmo corpo, essa jaula.

joão se escondia atrás de postes.

de postes e de pessoas, estrangulador de ternuras. e não sabia que todo mundo era assim, que não há um que não fale, olhe e seja visto através de suas próprias grades.

joão era grave.

tinha o sertão adormecido na goela. queria saber um pranto que o limpasse de si, que fizesse a terra parar de ter sede.

joão não se via no espelho.

seus olhos eram nublados de muito tempo. o que ele via era um borrão fazendo caretas. joão conhecia a linguagem de flores e pedras. o sol dentro da tarde alumiava suas funduras. tinha esperança, a seca ia embora. teimoso, apenas resistia ao fim de ser verde.

uma tarde quase morta, tomou banho e saiu. ainda podia respirar. quis sorrir grande. talvez assim a vida aprendesse.

golpes: desertos

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rompe do fundo do horizonte, nublada e fria, a manhã. o sol, envergonhado, doura uma grande tristeza, porque, hoje, todos nós embalamos ao colo um filho morto. é com a carne tonta da febre vã da vigília que, estarrecido, sinto golpear-me a vida. o golpe, oxalá pudesse vê-lo. não se entende o golpe. o golpe ninguém sabe de onde vem, esta facada furtiva. o golpe é ordinário e de todas as direções, faz qualquer coisa minha cair e tinir no infinito, saltar os miolos, e nada faço no mundo senão sangrar. o golpe é do tamanho da dor que causa. dor-deserto. e tudo é deserto. tudo é deserto…

sobre volta e açude cheio

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quando laura deu as caras de novo, zé largou o grito mais arrinado que alguma vez se ouviu na terra, e não teve tamanho a frouxidão no que restava de pernas daquele sofredor. quem já viu o derradeiro tiro sabe como é: dá tremedeira besta, bate disparado coração, um diacho travesso bole com a gente, beliscando a carne toda, mas junto à diaba não tem chororô. aparece do nada mermo e pega um e torce o pescoço sem mais nem menos, afogando o tempo de falta em suor e saliva, jorrando aroma e vapor, de ponta a ponta mordidos por fuligens antigas. uma tal de brabeza boa, alegria barata da mulesta. ela voltou desfilando, em passo de grande cerimônia. a seca tinha fugido. e foi tanta a imensidão do açude dentro dele, e tanto seu lampejo, que o homem, inchado de feitiço, ficou logo mudo de lindeza, represando, a muito custo, enxurrada dos olhos. as palavras não conseguem explicar essas coisas, vira tudo suspiro. ali, entre o pôr do sol e a noite recém-parida, se quedaram um à margem do outro, confidenciando horizontes e estupidezes, porque amavam. decidiram que a dor era o tempero que dava gosto à aventura humana e viram no amor doença incorrigível.

rabisco de saudade-asa

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quando o frio eriça o couro, bruto, e não se tem mais laura, a gente fuma, na urgência de banhar em fumaça morna o corpo todo. e aí, naquele molejo de amor machucado, fica a se perguntar, doidinho: será que ela volta? a saudade aperta, um vazio se faz no peito. é isso que dá ter loucura por uma mulher, cicatriz risonha e ardida. laura é toda uma criatura cheia de ferrugem, as tripas da cabeça já bem gastas, mal organizada nas dores, feito bicho, titubeando entre esse querer muito e querer nada, que carece de tempo, espaço, eu sei, cada segundo de vida lhe ferisse, tudo demorando em ser tão ruim. ô, gosto feio na língua, ânsia de gritar da peste. bora sonhar grande, laura, talvez assim a realidade aprenda, reabrir janelas, coar sol, arriscar sorriso, ir além das tantas tristezas, ser menino na ponta do mundo! laura, deixa eu te levar um dengo, deixa? minhas mãos, tuas coxas; meus peixes, teus anzóis. repousar frouxa, murcha, farta. morta de cansaço. escapole não, laura. tu tem em mim um colo e mil sopas quentes.