as flores morreram

As flores que plantei para ti morreram.

Não foi por falta ou excesso de água, nem problemas no solo. Cresceram vigorosas e deram toda sorte de cor e cheiro, por uns dias enfeitaram o jardim que mirava da janela da sala enquanto tomava café. Todos os dias, por muitos virar de calendário.

E assim segui. Seguia. Elas, as flores, também.

Pareciam desviar dos teus pés afoitos ao chegar em casa, mais abertas ao teu toque, se faziam mais bonitas ao você olhar.

Assim eu vi. Via.

[Uns lapsos de tempo e memória.]

Dizem que morreram de saudades.

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A mão que domava o vestido

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Bebeu os dois dedos de uísque, sem gelo. Esperou queimar, como era de costume, mas não daquela vez, desceu macio. Pela primeira vez. Levantou abaixando o vestido justo que deixava as coxas intencionalmente mais expostas aos ninguém. Ela apenas gostava de suas coxas.
Desfilou até o banheiro. Olhos de desejo a seguiam, a queriam, a comiam. Ela apenas seguia, obstinada pela bexiga pequena e pelo desejo de mexer na bolsa, passar batom, riscar mais o olho, corar mais a face.
Voltou e ignorou mais um pouco os olhos e se fez de surda aos menos educados. Pediu mais um uísque sem gelo e virou, esperando o queimor que mais uma vez não veio. Ao contrário de muitos que agora chegavam e ofereciam bebida e conversa que ela não queria. Não tinha nada de novo.
Como fome saciada, pagou e saiu.
Sentiu um vulto caminhando ao seu lado, sem nada dizer, sem olhar. Era apenas calor ao lado. Queimou o que a bebida não fizera. Depois de um tempo, deram-se as mãos e escandalizaram mais ainda os olhos. Com a mão livre, ambas ajeitavam os vestidos que teimavam em subir.

Desencanto em fuga

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A cama impecável de espera. As roupas que agora moravam no criado e os antibrinquedos de tão parados. Pousada na porta, ela se vertia em lágrimas, em memórias daquele que agora era busca e espera. Remoía o último diálogo incompleto, em véspera da noite que se deu a fuga.

– mãe, posso fazer balé?

A mãe nem respondeu, entretida buscando resquícios de poeira deixada pela Imprestável – apelido de alguma faxineira esporádica -, contou até dez, respirou fundo e se pôs a espanar o pó quase invisível a todos os outros seres. A empreita não a permitia notar o pequeno rodando e fazendo piruetas que passavam de um metro do chão e com pousos certeiros. Na cabeça dele era muito mais: como rodar entre estrelas, em tempo desconhecido e com música imaginada.

Quem olhasse de longe, perceberia que o espaço entre os dois não era muito. Mas absortos mundos próprios dentro de suas respectivas tarefas vulgares formavam-se vales, rios, penhascos, oceanos. De uma distância que régua nenhuma mede. Enquanto ela arrumava os bibelôs equidistantes num tabuleiro imaginário, o pequeno via o cetim do collant refletir o sol em seu corpo magro e ofuscar toda visão de passado, de presente, de futuro e a sentença de não se sentir aberração por querer ser bailarino, como tantas vezes a mãe repetira.

Entre si, eram anulados. Ela limpava, ele dançava.

Pela porta da frente fugiu das zombarias. De ser chamado de fresco apenas por ser o que queria. Fugiu na ponta dos pés, em cortina de vento e luz ausente de lua nova. Voltaria aos olhos curiosos de uma mãe cujo amor sempre se exibiu por linhas tortas, precário: ela juntara por meses o dinheiro para ver a estreia do único amor de sua vida no palco do teatro municipal. Ela seguia limpando: lágrimas, sem ser notada. Ele dançava sob luzes maiores, mas só se iluminou trêmulo ao enxergar as rugas da mãe na plateia. Se conheceram.

* pitadas solares por Leo Coutinho

Contos de avó

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_ Benção, vó.

Apenas ouvia o ‘Deus te ajude’ antes de ventar à cozinha em busca daquele café doce naquelas xícaras amarelas de porcelana barata, que de tão ajeitadas na mesa, pareciam esperar as visitas amiúde que se apequenaram mais ainda com a passagem do tempo. Bebia o café queimando os lábios, sentado com as pernas balançando na cadeira, de tão moleque com era.

E seguia o momento com o indicador abraçado pela mão já velha, passeavam em passos curtos pelo terreiro, ele pelo andar desajeitado dos poucos anos, ela pelo inverso. Olhavam as flores bem cuidadas, as galinhas que teriam a cabeça separadas do pescoço em cortes precisos, mas escondidos do pequeno que marejava o olho e segunda a crendice popular, atrapalhava o animal morrer. Entrecortava com perguntas de criança sapeca, enquanto ela construía histórias a ajeitar o lenço preto, luto do marido recém morto, à cabeça que já não escondia que o tempo passara e cobria de brancura.

Daqueles santos tão imóveis na parede velados por uma chama que parecia eterna, onde, mirados às imagens, ela o ensinara a rezar o terço, e rezar sempre para Deus ajudar, para chuva parar, para dor ceder, para a vida passar devagar.

Ele cresceu se fazendo presente. Anos mais tarde, quando o Alzheimer comesse as memórias mais novas, os olhos do menino que ventava seriam presente, passado e futuro. A voz dele era a única a fazê-la despertar, no sempre doce e rotineiro “benção, vó”.

Amor, eu te joguei no lixo

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Escrevi teu telefone na embalagem de Lucky Strike e como hábito, arremessei ao acender o último cigarro. Minutos depois percebi a cagada. Despido de qualquer pudor, comecei a revirar o lixo, ali em meio a festa. Parecia grotesco, mas era desespero mesmo. Teus olhos pareciam convites pra deitar do cansaço das horas de micareta fora de época. Mas acho que estava bêbado. Talvez estivesse bêbado. Definitivamente estava bêbado. Confesso de antemão que sofro com alcoolismo e fumo compulsivamente.

Se tinha música, não recordo mais. Qualquer ruído era incentivo ao mergulho no lixo. Cada pedaço de papel era revirado com esperança, desesperança, desassossego e nova esperança. Nojo mesmo só quando via uma carteira de Marlboro. “Como alguém pode fumar isso?” E me arrependia dos segundos perdidos. Voltava a catar o agora já maldito papel. Não seria mais lógico procurá-la de novo?

Sai da lixeira. Cambaleava tanto que recordo vagamente de ter tomado umas três quedas. Recordo não, o pé esquerdo inchado e três cortes no braço se fizeram lembrança. Entendia pouco porque foi fácil transitar entre as pessoas, todos se afastavam como se fedesse, como se estivesse sujo. Gente com preconceito! Acho que sabiam que tava amando, e, ali, amor definitivamente estava fora de moda.

Vaguei nas horas até não ter mais ninguém. Voltei ao lixo que agora estava vazio. Ensaiei um choro que foi interrompido por seguranças me expulsando à distância pois iam fechar a casa de show. Parti com gosto de derrota, mas arrotava mesmo era a cerveja barata que era servida na pista. Passei na vendinha e comprei mais um maço de cigarro. No caminho de casa fumei apenas a metade. Acabaram os fósforos.

Cala a boca já morreu

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_ Ô véi, larga de viadagem e chuta essa porra logo.
_ Pera que tu não nasceu de sete mês.

Ensaiava o chute tantas vezes, num vai e vem que ao goleiro, postado entre duas havaianas, parecia eterno e que sempre ao perceber o inevitável gol, gritava dois alto! Era gatilho pra confusão e a massa de meninos brigando em gritos e socos falsos e fracos, era mais barulho que força.

_ Tu é todo enrolão, só porque tu ia tomar o gol. O dono da bola a recolhia com uma altivez que viraria anos mais tarde um traço perverso em sua personalidade. Era dono do jogo, da rua, dos demais meninos do baba. Os outros guris ficavam olhando perdidos com o fim da brincadeira, eternidade de dois minutos até alguém arrumar uma lata que agora faria as vezes de bola ou meias, ou que mais coubesse na imaginação.

Agora revivo essa infância. Olho as havaianas, afastadas, aos pés da cama, parecem o gol que tantas vezes guardei.

 

O jardim das flores do amanhã

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Por milênios tudo está destinado a ser da terra, de novo e de novo. Lá nos primórdios era em meio à floresta, base de morro… Decomposição lenta.

Como tudo, ganhou tecnologias próprias e adornos exagerados e operadores com pás, escavadeiras, cortes precisos, trabalho minucioso da mais estranha das profissões. E de um dos que assim vive, poderia dizer que seus dias era de minhoca, cobra-de-duas-cabeças, toupeiras e toda a sorte de animal fossorial. Vivia a cavucar a terra e de esperar os donos que chegavam carregados. Parte fácil. Tapar de volta era onde tinha dor de cansaço. Lágrima dos outros pesa e uma vida não foi suficiente a acostumar. Por vezes queria ser esses bichinhos que cavam pra casa e comida. No final nem era diferente, só enterrando dores conseguiu casa e comida e a alcunha de derradeiro encontro.

Das horas de não alisar terra, era zelo. Arrancava ervas daninhas do campo em frestas de cimento, limpava a sujeira em espera de sorriso, resposta, carinho apenas de ser menos odioso aquele lugar. Mas gostava mesmo de vazio. Era paz. Com gente era olheiro, via tons escuros de roupas contrastando com toda cor de flor, com toda sorte de material. Tanto tempo ali o fez perceber que os que traziam de plástico demoravam na visita de volta, com as de verdade não se demoravam em voltar. Enfim, as pessoas enfeitam cemitério com flor para amenizar a tristeza de quem vive. Quem tá na terra não veria a beleza das raízes.

Por vezes pensava no dia de passar seu posto. Queria vestir um terno bonito e o cabelo alinhado com brilhantina. Uma bandeira do Olaria. Tudo opcional, seu desejo mais secreto era ter quem levasse flores. As de verdade.