[sobre dizer e ouvir]

A verdade foi lançada tão dura que causou estranheza como ela entrou macia. Como a faca entra numa laranja e se rompe a girar até cair na lixeira. E caiu. Se fez planta enraizada em campo seco que há muito nada dava e as raízes corriam o solo em busca de água. O tanto que fosse para ser sorvida. E assim sentada meio com as pernas arqueando um W, sorvia cada palavra dita. Ouviu, mas o que mais chocou foi a força sentida em algo que surgiu em simples mexer músculos da boca, e se esquece de mexer o resto do corpo, a bola dos olhos, todos quietos. ES.TA.TE.LA.DOS sob a força do que se dizia. Se inquietou ao lembrar que esforço foi só entoar cada sílaba. Cada ditongo. Cada vogal que sai fácil com a boca aberta e consoantes que dobram a língua, esbarram em dentes e fogem. Nada mais mexeu. EN.TO.A.DO. Parecia o biquinho de quem aprende francês. EN.SAI.A.DO. Parecia não. Impossível se articular tão bem palavras. E quanto peso de se ouvir. De travar o rosto ao chupar o pigarro do caju. Aquilo que seria resto. Uma força de fazer ficar no chão, como amarrado, gravidade agindo. Músculos medidos em toneladas. Foram necessárias gruas para erguer. Colocar no ponto mais alto e largar até afundar o asfalto e algum transeunte que passava na calçada e correu desesperadamente para o lado errado. ES.MA.GA.DO. Meio inverossímil, eis que ouviu o primeiro “te amo”.

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Olha a chuva

Cada estação tem seu cheiro e suas cores. Isso é diferente onde o tempo corre impreciso. Os limites são imperceptíveis e, constante, ignorados pela natureza. Mania besta de contar o tempo.

Naquele dia, notou que a florada de jambo e o cheiro da quarana apontavam os prenúncios do verão. Era inverno. Sempre foi assim nos muitos verões que viu. Chuva fina, algum frio e muitos dias de nuvem e nevoeiro. Mas esse seria o primeiro. Tinha sol. Era o primeiro caminhado em par. Martelando esse pensamento, a tarde vencia e ainda não marcava doze o relógio.

O país se desmontava. Que bom vou trabalhar mais dias e em horas por dia. Nenhuma notícia boa chegava em dias. A praia tava cheia e a cerveja custava menos, tava quente. O freezer era bom. Era desesperança, desassossego, infinitos… olha lá um arco-íris.

Desistindo do mundo, ou de pelo menos entendê-lo, sentou em um banco de madeira embaixo duma árvore e esperou. E escreveu planos pro futuro. Tudo virava silhuetas em luz plena. Coisas tão cheias de dimensões viravam planos com o lusco-fusco que torna tudo em mistério. Concretos.

O amor chegaria em minutos pra juntos se afastarem dali. Passaram-se anos.

O sol se deitava e a primeira estrela, que é um planeta, reinava no céu junto com uma lua crescente que parecia um sorriso. A noite era sem lua. Não era noite ainda.

Deram fortes as mãos. Dias bonitos viriam.

Olha a chuva!

adeus, eu

Atravessei a passarela sem olhar para os lados. Nem pra baixo. Não era medo de altura ou vertigem. A hora avançava, a metrópole desconhecida e as baforadas de cigarro cortavam. Mais até que o pouco usual frio em outubro. Em minha terra de prédios parcos já era verão. Avancei por mais umas ruas. Era o sentido onde o mapa apontava. Noroeste. Sempre fui péssimo em ler mapas. Mas a intuição também apontava pra lá. Arrastava minha mala com as roupas separadas cuidadosamente para as ocasiões. E toda vez que vislumbrava o prédio que deveria ficar, ele se misturava em outros prédios num labirinto suspenso pra caminhar eternidades.

Nesses minutos perdidos eu já não sabia o que vestir no dia seguinte. Eu não sabia o que comeria. Eu sabia que não voltaria pra casa. Isso me libertava.

Sentei no beiral da calçada. A desordem da cidade aos poucos em mim. Já não sentia frio. Eu era um grande cigarro sendo tragado. Apertado entre os dedos de uma mulher com o esmalte descascado. Era curvas no ar em brasa e cinza.
Era a bituca no chão. Era a bituca que me comia os sentidos e a razão. Sob as curvas de uma coragem passageira, peguei o celular e escrevi pra Maria: “cheguei, a entrevista de emprego tá confirmada pras nove. Mês que vem mando sua passagem.”
Rodei mais algumas ruas até me achar de vez. Troquei poucas palavras, o erre demora mais aqui. Tomei banho, sopa e deitei a roupa em um cabide como talismã numa caixa de veludo. Despertador para as seis.
Acordei suando tanto quanto no dia que conheci Maria. Escrevi longo recado: “Volto nunca mais, Maria. Te amo até quando existir palavra”. Subi para o terraço indicado. A entrevista ficaria sem entrevistado. Marchei calado, um riso pendurado nos olhos, nenhum na boca.

Nesses minutos achados eu já não sabia o que vestir no dia seguinte. Eu sabia que não comeria. Eu sabia que não voltaria pra casa. Isso me libertava.

lavoura de sonho [o início]

fotogren

Cavou mais uma cova. Dentro do bolso da velha camisa xadrez, retirou uma semente diferente. Já não sabia quantas árvores tinha plantado e quantas mais precisaria plantar. Sentia menos em cada semente que alcançava o solo. Sentia-se menos.

Dez anos que descobriu esse poder. Percebeu-se como único dos seus depois duma longa chuva e se abraçou numa estranha tristeza. Sentiu um leve incomodo no bolso, e viu uma semente grande e pesada, com espinho por toda testa. Plantou e sentiu toda tristeza fugir do corpo e nunca mais voltar. E aos poucos foi extraindo todos os sentimentos ruins: ira, inveja, medo, vaidade… e o bosque por ele construído com árvores medonhas.

Ninguém desconfiava, tampouco entendiam aquele ser dotado apenas de sentimentos bons. E aos poucos foram se afastando. Incapaz de ficar deprimido, começou se desfazer dos sentimentos bons. Por fim depositou a esperança e deitou com olhos vazios e se encontrou com a morte.

O bosque estranho borbulhou em frutos e por muitos anos, seguiu seus ciclos de flores e frutos que acabavam no chão, nascendo novas plantas que povoaram vastidões, até alcançar povos que comeram seus frutos e se tornaram tiranos, melancólicos, tenros, pueris, alterando o frágil equilíbrio dos seres pro bem ou pro mal.

Eu, mulher, sem imaginação

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Eu, mulher, condenada a escrever apenas o que vivi. Sofro de completa ausência de imaginação. O irreal nunca me foi alcançado com as mãos ou qualquer outro sentido e palavras abstratas nunca me tomaram forma. Nem usando psicoativos. Não avancei nos estudos porque não conseguia compreender o que era um átomo ou uma célula ou uma equação. Vivo apenas do que posso tocar. Do que posso ver. E se santos ou espíritos pudesse compreender, alguém diria que sou a personificação feminina do São Tomé. Mas o que o termo São Tomé significa pra mim eu desconheço.

Tornei-me escritora por incapacidade de outros ofícios. Não sei se escritora é o termo mais adequado. Relato os casos de minha cidade num jornaleco que mesmo edito, imprimo e distribuo. A periodicidade era aquela possibilitada por uma cidade que as ruas eram tão parcas que ainda não careciam de nomes de verdade, sendo referidas pela posição em relação à igreja. Atrás, Na frente, Rua do Meio… Por falar em igreja, nunca compreendi o conceito de deus. Por conta do jornal e da incapacidade de entender deus, ganhei duas alcunhas nada gentis para moradores de cidades-minúsculas: ateia e fofoqueira.

De tantos dedos apontados, tranquei-me. No quarto, via fugir as palavras que sabia por não ter o que contar. Em papel de riscar acontecido, rabiscava e apagava tudo que se passava em casa. Rotina marcada pelo tempo. Escrevia o dia e apagava a noite. Escrevia a noite e apagava o dia. Até que me dei por vencida e esperei, tempo para mim que era impossível contar.

Juntei as folhas que antes eram brancas, amontoadas no guarda-roupa de poucas roupas. Ajeitei-as na mala protegidas por um classificador de couro, que era do pai. Corri dali. Seria a primeira nova história que começaria a contar. No ônibus de fuga, quem olhasse meu sorriso diria que ia ao encontro do amor. Jamais saberei o que isso é. Mas vou atrás de algo melhor: novas histórias.

as flores morreram

As flores que plantei para ti morreram.

Não foi por falta ou excesso de água, nem problemas no solo. Cresceram vigorosas e deram toda sorte de cor e cheiro, por uns dias enfeitaram o jardim que mirava da janela da sala enquanto tomava café. Todos os dias, por muitos virar de calendário.

E assim segui. Seguia. Elas, as flores, também.

Pareciam desviar dos teus pés afoitos ao chegar em casa, mais abertas ao teu toque, se faziam mais bonitas ao você olhar.

Assim eu vi. Via.

[Uns lapsos de tempo e memória.]

Dizem que morreram de saudades.

A mão que domava o vestido

Woman sitting at bar

Bebeu os dois dedos de uísque, sem gelo. Esperou queimar, como era de costume, mas não daquela vez, desceu macio. Pela primeira vez. Levantou abaixando o vestido justo que deixava as coxas intencionalmente mais expostas aos ninguém. Ela apenas gostava de suas coxas.
Desfilou até o banheiro. Olhos de desejo a seguiam, a queriam, a comiam. Ela apenas seguia, obstinada pela bexiga pequena e pelo desejo de mexer na bolsa, passar batom, riscar mais o olho, corar mais a face.
Voltou e ignorou mais um pouco os olhos e se fez de surda aos menos educados. Pediu mais um uísque sem gelo e virou, esperando o queimor que mais uma vez não veio. Ao contrário de muitos que agora chegavam e ofereciam bebida e conversa que ela não queria. Não tinha nada de novo.
Como fome saciada, pagou e saiu.
Sentiu um vulto caminhando ao seu lado, sem nada dizer, sem olhar. Era apenas calor ao lado. Queimou o que a bebida não fizera. Depois de um tempo, deram-se as mãos e escandalizaram mais ainda os olhos. Com a mão livre, ambas ajeitavam os vestidos que teimavam em subir.