Maria?

Maria? encurvada pelo tempo como quem aguenta o mundo nos ombros. Lirismo tolo, quem conhece Maria? sabe que é de carregar água, trouxa de roupa e filhos entre a cabeça e braços, estes que agora se orquestram sincrônicos em oração.

Maria? não sabia ao certo porque rezava. Não dependia mais de chuva para viver. Todo mês o dinheiro chegava ao banco e, depois de algumas horas-humilhação em filas, repousava escondido entre as mamas corroídas pelo tempo e de lá só saía para quitar a pequena dívida no mercado.

Maria? não rezava pelos filhos. Um a um, dos nove, tombaram ao caminho: varíola, sarampo, disputa de faca, jura de sangue, jura de vingança, de parto, de parto [de novo] e dois nem vingaram depois de nascidos, minguados que eram.

Maria? não rezava pelos homens. Os teve. Três homens-momento. Flerte. Calor. Gozo. Barriga. Descida pro Sul com promessas “eu volto pra te buscar”. Outro não soube o nome. O terceiro ela tratou de esquecer.

Ali Maria? descansava a vida. Murmurava reza. Fazia o gesto da cruz. Não é o que se espera de quem a idade avançou a ponto de ser beira-fim? Mas Maria? não se importava. Seguia pedindo em suas rezas-nadas em grande fervor-fé. Olhando a Santa. Ombros caídos dos pesos água-trouxa-filhos-homens vazios. Sem manto, este cobria Maria.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s