jogos de invenção para chuva

aquela hora, pedro pudesse morrer, não ligava nem um pingo. era bonito ver o quente que aparecia nos olhos de ana quando a boca dela sorria. as carnes pulsando como fossem de passarinho, sonhejava penhascos, vinham-lhe fomes, arrepios de grandes tamanhos. perto de ana, ficava era todo mole, tantos detalhes, tantas grandes miudezas, que não se tinha nem onde acostumar a vista direito, tudo o que é firme degelando no horizonte ferido, ardente interminável. pois digo e redigo: pudesse morrer, parecia nada não se importar, não. cheiro de mulher bordado na sua pele, calores que trocavam à beira d’água, molhaduras, sujices boas sem fim. a trégua, a entrega e o disfarce – os dois mesmo estilhaçados, prenhes de sons que não entendiam.

ele queria saber dizer qualquer coisa, captar o impercebido do momento. não sabia. coração bruto batedor por debaixo de tudo, pensou que a perfeição seria talvez o não falar nenhum e deixar aquietadas as palavras. descobriu como toda alegria, no mesmo do instante, abre saudade doída. e assim que ana ia embora, o que ficava mais, nele, como agrado em lembrança, era a voz, uma voz que teimava assentar. ouvido dele retorcia a voz dela, que, mesmo no fim de tanta fogueira, o amor inchava, de empapar todas as folhagens, pedro ambicionando de carregar ana nos braços, beijar, as várias demais vezes, sempre, com um realce de vagareza, tanto desmentindo pressa.

e, afinal, ela se foi. não se pode explicar como nem por quê. ora a luz de um grande prazer, ora o clarão de um farol ofendido. a vida tem suas canalhices.

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