[sobre dizer e ouvir]

A verdade foi lançada tão dura que causou estranheza como ela entrou macia. Como a faca entra numa laranja e se rompe a girar até cair na lixeira. E caiu. Se fez planta enraizada em campo seco que há muito nada dava e as raízes corriam o solo em busca de água. O tanto que fosse para ser sorvida. E assim sentada meio com as pernas arqueando um W, sorvia cada palavra dita. Ouviu, mas o que mais chocou foi a força sentida em algo que surgiu em simples mexer músculos da boca, e se esquece de mexer o resto do corpo, a bola dos olhos, todos quietos. ES.TA.TE.LA.DOS sob a força do que se dizia. Se inquietou ao lembrar que esforço foi só entoar cada sílaba. Cada ditongo. Cada vogal que sai fácil com a boca aberta e consoantes que dobram a língua, esbarram em dentes e fogem. Nada mais mexeu. EN.TO.A.DO. Parecia o biquinho de quem aprende francês. EN.SAI.A.DO. Parecia não. Impossível se articular tão bem palavras. E quanto peso de se ouvir. De travar o rosto ao chupar o pigarro do caju. Aquilo que seria resto. Uma força de fazer ficar no chão, como amarrado, gravidade agindo. Músculos medidos em toneladas. Foram necessárias gruas para erguer. Colocar no ponto mais alto e largar até afundar o asfalto e algum transeunte que passava na calçada e correu desesperadamente para o lado errado. ES.MA.GA.DO. Meio inverossímil, eis que ouviu o primeiro “te amo”.

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