dá teu pulo, santo

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agitando a cabeça sobre o travesseiro, leo abre a boca, range os dentes, estala a língua e bufa. o rosto faz-se chocho. deitado sobre o dorso, seminu, pernas encolhidas, sente arderem as tripas. um aperto o invade tem dois dias. dona eulina, que não lhe sai de perto, diz, sufocando a calada do tempo:

– sabe, meu filho, deus tem dois grandes sacos a seu lado. um à direita, outro à esquerda. e com eles, joga tranquilo a sorte dos homens. no saco da direita, guarda o nome de todos os viventes da terra. no da esquerda, acomoda o sem-número de atribulações que aflige as criaturas…

– e daí? – ele retruca, impaciente.

– e daí que, para distribuí-los, deus mergulha a mão direita no saco dos nomes e dele retira, ao acaso, um papelzinho que entrega a um dos santos auxiliares. este o desenrola, lê o nome ali escrito e o anuncia. então o senhor mergulha a mão esquerda no saco das misérias, retira um papel igual ao primeiro e também o entrega a um de seus assistentes, que lhe revela o conteúdo, silabando: dor-de-cu. deus ri, o sorteado sente uma pontada terrível no cu e se contorce, imediatamente. assim começam as nossas doenças sem explicação nem causa aparente. chamam a isso de destino.

ao que leo, hoje aos 30, mas que desde os 10 não crê em deus, tampouco em santo, responde:

– balela, vó. balela…

– não te digo nada, menino… se não sabe, é assim já da criação do mundo, deus entretendo-se neste jogo: castigar e premiar a gente. dá catapora a um, dá sarampo a outro… às vezes, como os governos dos povos, concede algum benefício. mas, como acontece aqui na terra, lá no alto a sorte também não é cega.

– como assim?

– os santos, para atenderem os seus devotos, manipulam o sorteio, ué. trocam os papeizinhos e, na leitura, os nomes. os mais sabidos até metem as mãos nos sacos, mexem, remexem, fazem a festa. seja a cura possível ou não, quem não nos atende cai em descrédito, assim ordenaram.

– e deus não desconfia disso?

– veja bem, meu filho, deus sabe de todas as coisas… – respondeu, antes de voltar o silêncio.

naquela noite, assim que dona eulina adormeceu, leo falou com santo expedito:

– dá teu pulo, santo, que da cama eu quero sair!

e acordou sarado, uma semana depois, quando já nem se lembrava de desgraça nenhuma.

* eco dos contos “sacos de deus” e “o rato”, de iberê camargo.

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