Acabar: começo

quarto

“{João amanheceu arma em punho}

Batidas à porta.
João suou frios passados.
Morreram de bater.”

Escreveu só pra ver a poeira da Remington de sessenta e poucos anos atravessar seus olhos descobrindo o pouco do verde que lhe sobra na pintura ferida. O quarto contava bem a história do ano: móveis gastos, sujeira antiga escondida em cada canto, papeis amassados de histórias que jamais nasceriam, uma umidade que ameaçava a garganta dele, roupas de bebê do chão de sua infância pequena, poucos livros, muitos discos, insetos já familiares.

“Revoluções aconteceram por muito menos que isso”. Repetiu ao fim de cada tragédia cotidiana. Seus olhos marejaram de janeiro a abril. Secaram de maio a agosto. Viraram duas pedras de arder de setembro ao fim do ano. Significava nada. Nada esse tempo de virar calendário. Mas cedia a pequenos rituais. Em segredo, claro. Limpava o quarto, comprava uma fita nova para a máquina, uma agulha nova para a radiola amontoada em cadeiras que perderam a função de sentar, se vestia como em qualquer tempo ordinário.

Se olhou no espelho como se tentasse ouvir alguma coisa dentro. Teve vergonha quando uma lágrima escorreu cadente, era um choro de alívio. Um choro de saber que nunca mais um tempo desse. Ficaria pra trás seus dias mornos fingindo escrever a próxima obra-prima que ninguém leria. Ficaria pra trás suas promessas não cumpridas, todas imperdoáveis. Se olhou no espelho como se tentasse ouvir alguma coisa dentro. Sorriu largo. Um riso triste de nunca mais os afetos desse tempo, nunca mais alguns quase amigos ignorando suas tentativas. Nunca mais.

O quarto já limpo, os olhos sujos de poeiras antigas, as mãos calejadas de alguns móveis fora de lugar, nenhuma calma pequena pra acomodar seus braços. A máquina seguia lá, empoeirada, e a tinta gasta como prova de suas tentativas. Era a prova de que algumas coisas não mudam, ainda que sacudidas e espanadas. Sorriu outra vez. Era um riso de aceitar. A porta bateu.

Saiu pra passear. Sentou-se pra escrever. Era tempo de acabar: começo.

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