Chão de maravilhas

chao-de-maravilhasO ano chegava ao fim. Ano de fardo pesado, quantas vezes pensou não mais suportar? Nenhuma resolução cumprida: o amor não fez dele morada, aquela barriguinha não desapareceu e aumentou, os trabalhos da faculdade teimavam em atrasar, não tinha quem desse emprego e emprego já era artigo raro,  a vida eram golpes insistentes. Agosto não passara. Andou pelas ruas quentes de muitos carros, sombra humana só a sua, se é que era homem, já não sentia. A boca seca, o cabelo mal cortado grudando na barba que há muito não fazia, o suor persistente unia ele, cabelo e barba em uma coisa só, que se afigurava desavisadamente na tarde sem vento. Peregrinava em busca de sombra, água e alguém com quem conversar, tudo em vão. A boca seca, o fôlego findando, pensou na praça, sempre vazia  com suas árvores estranhas, invasoras de sertões, talvez único lugar que servia de caminho pra brisa fresca e onde um bebedouro sem manutenção matava a sede dos raros passantes desprovidos de nojo. Rumou para lá, pelo menos assento, água e sombra iria ter.

Era Dezembro, chorava um silêncio agarrada ao travesseiro. Não havia mundo longe dele nos últimos dias. O aperto era tal que o forro já exibia pequenos rasgos de muito gasto. O rosto mirando a janela com um sol e um verde e um dia que não deveriam ser. Pensou num banho que aliviasse o calor do corpo e levasse o ranço do desprezo impregnado em sua pele, tomou. O frescor da água, o chamariz da janela, aquele sol num céu que de tão azul doía, a cidade que não aprendera a falar ardia. Sua casa uma das poucas numa praça que não tinha ninguém, sempre vazia  com suas árvores estranhas, invasoras de sertões, talvez único lugar que servia de caminho pra brisa fresca, vestiu qualquer coisa e desceu.

Era uma tarde quente e estranhamente bonita de verde e azul a contrastar com o bafo iminente do verão, bebeu a água e mirou as pequenas flores vermelhas que salpicavam o chão de pedras portuguesas e assim deixou-se ficar.

– Maravilhas!

Levantou a cabeça sem entender a voz que cortava o silencio e o parar da tarde. Eram coxas em um vestido puído, sorriso farto e olhos aparentemente mareados de algum choro recente e um cabelo maravilhosamente emaranhado em um ser atrevido, que parecia julgar seu torpor pelas pequenas flores.

– O que disse?

– As flores que você tá olhando, se chamam Maravilhas.

Sorriu ante a afirmação. Chão de Maravilhas, maravilhosa aparição. Está próximo o ano bom.

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