dia de nascer {gente maior que lugar}

cactus

Era dia de trovejos firmes na vila que começava e acabava na mesma rua. As casinhas ladeadas todas de cores fortes, os telhados baixos, em vez de números os nomes de cada última criança nascida ali. Lado a lado, João, Ana, Manoel, Menina, Pedro, Filomena, Francisca, cada um com um garrancho diferente escorrendo um tanto de branco pintura abaixo das paredes todas irregulares como que acompanhassem a irregularidade das chuvas do lugar de estar. Uma casa branca, a mais miúda, a mais calada, nome nenhum escrito na parede, rodeada de gente à frente e os olhos de pressa e alegria incontida da última casa ali ter agora dado gente.

– É homem.

– É não.

– É macho.

– É não.

– É, sim, que não tem nem jeito de chuva, nem vento de assobio. Só pode ser macho.

Passava logo ali abeirando a caatinga dona Nora, a mulher que ninguém se atrevia a tratar com a menor deseducação. Nora, diziam, tinha ido estudar muito nova na cidade, e quando voltou, professora e “roupas de homem”, teria endoidado, por motivos de viver enfiada no mato. Poucas palavras trocava com gente, poucas vezes se avizinhava de casa nascendo pessoa porque desde ali seu interesse por quem falava era senão nenhum, quase nada. Mas vinha Nora, no que os olhos da multidão de uns dez se virou para ela, meio agonia, meio curiosos, boca nenhuma arriscando bom dia. Os olhos de Nora levantaram num de repente e miraram a casa branca que, em vez de tinta, a única cor que recebia era a de uma trepadeira que ninguém nunca havia visto ali e que subia pelo telhado se misturando com as ripas de sustentar o teto. Era sabido que a casa um dia dormiu branca e acordou com a planta já toda crescida. Não havia ninguém que negasse, ninguém que provasse a história, mas como tudo por ali a verdade inventada se perpetuava. Os olhos de Nora levantaram num de repente e miraram a casa branca, a gente toda por ali abaixou a cabeça e esperou alguma praga, coisa que gente doida gosta de fazer. Nora, caçadora de plantas, veio atropelando o mato à altura das canelas num passo forte como fosse derrubar o que o caminho mostrasse à frente. As bocas todas escancaradas de vê-la de tão perto por motivos que não um de dar cura a algum muito doente quase morto acompanharam a passagem de Nora até o batente da porta. Nora passou a mão na trepadeira como uma conversa, arrancou um punhado de folhas e manchou a porta da casa com um nome. Saiu na mesma pressa que chegou, a bota levantando poeira ainda seguida pelos olhos desgarrados dos rostos de todos. Murmurou:

– É fêmea.

Quando Nora finalmente desapareceu de volta na caatinga, os olhos buscaram o nome escrito garranchos firmes na parede branca num verde escuro escorrendo feito sangue:

MARIA.

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