Ano de convicções

Era um choro menino desaguando no rio, era soluço abafado cursando pro mar. Ano difícil. A vida golpeava a gente, faces queimadas de sol em luta, gargantas roucas pensavam: Gritamos baixo, 367 não ouviram. Não ouviram nós, vozes que se somam em contas de milhão,  vozes que sustentam eles a falar. O problema, talvez, fosse em ver. Mostramos dos nossos olhos de esperança o brilho, chama acesa esquentando as ruas. 55 pares turvos de mãos quiseram nos vendar. Ano difícil. Nos querem cortar as línguas e braços, nos querem pisar os calos das mãos, nos querem tirar a fé e o sonho. E a justiça menina, que ainda é feto, agoniza abortada nos braços infelizes de uma Pátria mãe, jamais gentil. E na teimosia daqueles que tem sede e gana, a peleja é convicção.

Um cachorro chutado agoniza na calçada da cidade que não sente o golpe, pés cruéis de quem só soube ser gente. Ruas  em festa, polarizadas em duas bandeiras que lembram os coronéis, luto online pelo moço da televisão. Era um choro menino desaguando no rio, era soluço abafado cursando pro mar. O velho que chora a morte injusta do cão na calçada me lembrou Drumond: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. ”

Cama e corações frios. Olhos vidrados a esperar um amanhecer que seja mais que a noite.

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