jogos de exílio

light_bulb_sunset_by_matejpaluh-d5qya6d

As pessoas só apareciam em horas escuras. Enfeitadas em muitos panos coloridos, doíam seus olhos, feriam seus ouvidos com perguntas cujo fim não escutava, como um zumbido que já não podia distinguir entre os outros sons do mundo que criara. Um mundo vago. Uma pessoa vaga. Respondendo vagamente qualquer coisa pra questões que não se podia distinguir da música dos bichos, das gentes, das coisas que a gente criava pra se distrair da sombra que abeirava os dias cada vez mais curtos.

Tinha uma certeza em pedra de que a luz demorava mais a chegar, ia mais rápido embora, e a tarde, que de verdade sentia ser mesmo a única coisa digna de atenção da porta pra fora, durava tão pouco que sequer podia chegar no portão quando se dava conta que uma luz melhor pintava o corredor de uma vontade de sair.

– é só o inverno chegando – disse a voz repentinamente cheia de sentido e razão.

Teimou. Não se perde assim desassossego cultivado de anos. Se deu conta de que a voz que veio não lhe perguntou nada, não se misturou confusa com os ruídos do resto, não doeu. Não se podia negar que fez o impossível para aqueles tempos: diminuiu a graça de seus jogos de exílio.

Repetiu uma vez e mais outra que a tarde, essa divindade de altares em sarjetas e muros e paredes, de verdade mesmo a única coisa digna de atenção da porta pra fora, durava tão pouco que podia nem chegar no portão quando reparava que a melhor luz dos tempos pintava o corredor de uma vontade de sair. Respirou fundo. Sorriu. Sua mão já alcançava os trincos da janela. Um horror cobriu seu rosto. Sorrir? Era demais. Não havia tempo que medisse quando havia nascido ali um sorriso, talvez mais tempo que a última vez que rangeram os trincos enferrujados das janelas largas bocas escancaradas pro corredor onde a melhor coisa luz do fim da tarde pintava algum sentido… A voz. A voz estragou seu jeito de estar nesse mundo. Era certo. Era um horror cobrindo o rosto.

– não diga mais! – disse enquanto suava mãos e rosto em agonia nova. Não ouviu resposta. Sua mão já abandonava os trincos das janelas, a luz já não cobria o corredor, nem sorriso absurdo de assalto, nem nada.

Desdobrou papeis, abriu gavetas, portas e armários. Não encontrou. Não estava mais ali. Talvez nunca mais. Que alívio. Que alívio… Que saudade.

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