posso te matar?

 

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— posso te matar? – ela perguntava, ajeitando um cigarro, vagarosa.

e ali, no silêncio comprido de uma tragada, sobre a cama de varas, pensei não ser homem nem coisa nenhuma, ao lado dela. apenas sorria, enfeitiçado. ou melhor, por inteiro, eu era o próprio sorriso. quis dizer: me aferroa, mulher, qual um bandoleiro; faz o que quiser de mim, brutaliza, e teu nome será, ainda, o último coágulo de sangue em meus lábios. podia reagir? não podia, não tinha jeito. ia ser salgado, estendido em corda, ter furado o pescoço com faca de ponta, devagar. ia ser rastejado caatinga adentro, de um vermelho indeciso e salpicado, entregue aos carcarás, caído, bobo de ardência, paixão. fôlego ansioso da peste, fico uma chaleira fervendo. rosa chega sempre assim, tirando logo o fato fora, ardilosa, que só bem depois a gente nota e tão somente dá tempo de espiar as tripas, rezar um ave maria. se entra nela, ou morre, ou sai com fundas feridas. e, quanto mais entra, maior é o querer que entre. um amor imenso, sem escolha, brabo, que se embrenha, repentino feito susto, achando graça. foi a hora de pigarrear:

— anda, condenada do diabo, que já nem sinto o zinco no lombo…

e a lâmina desceu, tesa, mas suavíssima.

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