Milagre

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– Milagre, milagre. – o pastor gritava espumando os cantos da boca em branco, projetando os olhos pra fora das órbitas, quase alcançando o rebanho, enquanto um falso aleijado levantava da cadeira de rodas. – Posso ouvir um aleluia?

– Não. – a plateia gritou em uníssono.

– Posso ouvir um aleluia? – perguntou novamente, mais enfático que da primeira vez, sem acreditar muito na resposta.

– Não. – a audiência repetia, pedra.

Em anos de ministério, era a primeira vez que o inusitado aparecia assim garras de fora. Suas ovelhas foram sempre muito obedientes, adestradas pelas escrituras; eram pontuais no pagamento do dízimo generoso, e enchia de inveja os pastores das outras igrejas, pois em nenhuma outra se cobrava em boletos bancários, com carnês de seis meses, deixando a porta larga para reajustar o valor duas vezes ao ano.

Não era só pelo dízimo. A devoção de joelhos que os fiéis tinham por sua pessoa era maior que a devoção ao próprio Jesus, para escândalo dos anjos. Ele se valia disso, e muito. Pegava para brincadeiras sexuais inocentes as moças e os rapazes mais bonitos da congregação. Um processo lento: tinha que convencê-los que não estavam pecando contra a carne. Na explicação, olhos paternais, dizia à vítima da vez que sabia seus pensamentos ocultos, que a única forma de livrá-los da tentação de Satanás seria algumas intervenções de salvação feitas por ele mesmo.

Qual seria o motivo da revolução deste dia? Sua cabeça fervilhava em possíveis explicações, mas não podia fraquejar. Vociferou contra a multidão:

– Irmãos e irmãs, temos aqui a prova que Jesus, que curou Lázaro, curou este infeliz. Júbilos ao Senhor de Israel. – Falou com as veias da testa saltando, no esforço intestino de se mostrar convivente. Sem seus fiéis as cifras de sua conta minguariam e os pintos e xoxotas novinhas escapariam…

Os fiéis deram as costas e saíram da igreja deixando o pastor e o impostor braços abertos, olhos desertos.

Na rua, multidões de outras igrejas se acumulavam. Numa cidade de milhão de habitantes e maioria cristã, era uma multidão transbordando em turba. Murmuravam: – Jesus voltou, Jesus voltou! – e caminhavam rumo ao norte repetindo o mantra. Não prestavam atenção em quem estava ao lado, os olhares vagos como fossem milagres atendendo a um chamado.

Um dia e outro depois: celular, TV, rádio, internet pararam de funcionar. Tentativas de contato falharam sucessivamente. Pessoas enviadas para investigar não retornavam, assimiladas ou desaparecidas. Cidades menores foram varridas. O exército, recusando enfrentar civis em missão divina, virou poeira e passado. Um rastro de sangue e silêncio cobriu todas as terras dos homens.

Num lugar esquecido a resistência se organizava. Sentados em cadeiras, um rasta e o pastor impostor com o terno em trapo escutavam uma puta toda coberta de panos:

– Então, amados…

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