amores, calçadas e fim

fotopipa

 

O sol queimou-lhe a cara pontualmente, às seis e vinte da manhã, rotina de incômodo despertar. Olhou para o lado encarando aquela figura, sombra de um amor há muito esquecido, aquela silhueta lhe dava tranquilidade. De certa forma sua insuportável presença trazia-lhe a lembrança do que um dia foi e fazia vir à superfície o calor daqueles ditosos dias, hoje escondidos sob muitas camadas blindadas de rancor e ressentimento. Levantou sem pressa, arrastando-se ainda um pouco tonto ao fétido banheiro que lhe servia para o asseio diário. O mar estava de ressaca. Encarou-se no espelho, o estranho que insistia em mirar-lhe não lhe devolvera os traços serenos e displicentes de boêmio poeta.  Lavou-se sem cuidado, vestiu algo que não lhe caia bem, penteou-se mecanicamente, vomitou a pesarosa angústia verde, escovou-se e abriu a porta para aquilo que chamava “suplício dos viventes”. Uma rotina demasiadamente estúpida de trabalho e convenções das quais não era adepto, mas a qual era fatalmente obrigado a aceitar. Ela já estava de pé, deixando-se ocupar entre o café e o pão. A beijou porque se fazia necessário, não queria café. Pegou a pasta marrom, pôs os sapatos e invadiu o mundo. Manhã atordoadamente quente, uma ratazana na calçada suspendeu seu passo ao correr para um bueiro, olhou para o animal com inveja, tão simples se fazer invisível enquanto que para ele a insignificância era cada vez mais notória. Chegou ao serviço pontualmente atrasado, o cheiro de perfume barato que emanava da recepcionista trazia-lhe a ânsia do vomito contido e aquela cabeleira loira de raiz escura, aqueles lábios mal pintados de carmim que outrora desejara avidamente possuir, tornaram-se repulsivamente incômodos.  O dia arrastar-se-ia beneditinamente. A espera por uma mensagem, um telefonema, uma carta Dela que jamais chegaria tornava tudo mais difícil, tão mais fácil seria se tudo realmente tivesse findado. Dedicava-se com afinco aos papéis sem o prazer que em outra vida lhe reservavam. Os acertos burocráticos não tinham sequer uma gota do doce suor  da qual pingara sua poesia, poesia que Ela levou embalada no riso e no pranto gasto, toda sua incapacidade Lhe era devida e a bruxa sequer tomara conhecimento. Voltava para casa sem pressa, uma caminhada ladeada por carros, mendigos e camelôs a espalhar tristeza e poluição, o dia terminara cinza. Espanto foi o seu ao abrir a porta e encontrar a casa vazia, ficou paspalhamente boquiaberto ao dar-se conta que aquele ser quase inanimado sumira levando a mobília. Deixara apenas um bilhete de garatujas quase indecifráveis: “ Não se pode competir com uma lembrança”. “Não se pode competir com uma lembrança”, ela disse.  Um problema, uma solução. Uma pipa menina sambava pela janela, quis alcançá-la. Deixou-se deslizar gentilmente pelo parapeito, quem sabe não conseguiria pegar a pipa rubra.
O sangue que agora escorre pela calçada estampará o jornal de amanhã, não se pode competir com uma lembrança, quem sabe então se Ela…

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