{menina pés descalços}

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Toda vez que nascia alguém na vizinhança, dona Ida ia até a casa perguntar à família, de conhecidos ou não, se poderia ser ela a primeira pessoa a calçar os pés da gente miúda nascida ali. Seu hábito era conhecido por todos, e, apesar do estranhamento dos primeiros anos, não se tinha notícia de alguém ter-lhe negado o pedido curioso. Não passava muito do metro e meio de altura, as roupas sempre castas. Não se casara, não tivera filhos, ninguém jamais soube de algum amor desfeito ou alguma vingança ainda por realizar. Tudo isso criara em torno da mulher, com o rosto nunca visto, um pouco de medo, outro tanto de respeito, mais outro de segredo. Alguns diziam que dona Ida teria um rosto tão lindo que qualquer um a vê-lo morreria de não suportar o horror que o redor ganharia em comparação com a lindeza dela. Outros arriscavam que ela conseguira, às expensas de um trato com os mais antigos espíritos do mundo, preservar um rosto de menina. Esta última hipótese se valia da única coisa que ela deixava à mostra: seus lábios sempre assinalados por um riso quieto no fim das frases. Mas as mãos eram de mulher muito vivida, não poderia ter menos de 60. Não com aquelas mãos.

Apesar do pedido de calçar ser feito a todos, só as nascidas meninas viam cumprida a promessa. De modo que nas ruas por perto se via sempre o mesmo: meninos sempre descalços; meninas calçadas ou não, segundo a própria vontade. De muitos anos os meninos dali foram pegando o mau hábito de apedrejar a casa da mulher, os únicos entre todos a ter a ousadia de desrespeitar dona Ida: os meninos. E se riam e atiravam pedras, sempre as menores, até a porta se abrir e o riso e eles irem embora descalços. A primeira pedra, diziam os mais velhos, era sempre atirada pelo espírito de um homem alto, magro. Também conversa sem muita verdade, a não ser os rastros das passadas na caatinga nos dias seguintes às pedras atiradas.

Chegou o dia em que nasceu uma menina, mas não se viu sinal de dona Ida. Depois de alguns dias de agonia e sem sinal da mulher, a família da criança formou uma comitiva e foi até a casa dela. Encontraram ao redor do terreno as pegadas do homem que não existia, se encheram de medo e fizeram o caminho de volta sem saber o porquê da ausência dos passos curtos da mulher pequena e seu pedido de sempre pra calçar a primeira vez os pés das meninas.

O homem que atirava a primeira pedra nunca mais. Os meninos amontoavam as pedras que não jogaram depois ao redor da casa de dona Ida, inventando o primeiro muro do lugar.

A menina cresceu e a primeira coisa que inventou com as próprias mãos foi uma sandália. O povo dali ficou escandalizado com a precocidade da menina descalça, os meninos ameaçaram tomar dela a sandália, mas ela corria mais que todos eles. Nunca a alcançavam. Nem ali nem nunca depois. Diziam que ela não corria, voava.

Com a sandália em mãos, a menina se dirigiu à casa de dona Ida. Os meninos a seguiam de longe, planejavam pegá-la naquele dia, de surpresa. Quando a menina alcançou o pé da porta de dona Ida, aberta com o escuro da casa lá dentro, os meninos avistaram o chão fazendo o som de passos gigantes, e os olhos deles quase fugiram de seus rostos magros quando enxergaram meio sonho meio horror o rosto quadrado do homem maior que altura dos tetos de todas as casas encarando-os em pedra e pressa de alcançá-los. Fugiram aos gritos.

A menina ignorava a cena, não enxergava o homem, mas viu a mão de dona Ida, uma mão tão jovem quanto a sua, esticando um convite em sua direção. Lá dentro, a mulher acendeu uma vela, e perguntou:

– Trouxe? – e a menina lhe estendeu o primeiro fruto de suas mãos. O rosto de dona Ida se iluminou, e ela puxou um pouco o vestido revelando os pés descalços assim bem próximos aos pés também nus e pequenos da criança à sua frente. Elas se olharam em entendimento. Os rostos das duas se misturaram.

– Por que tu não me calçou? – a menina não conteve a curiosidade, apesar do absurdo em sua frente.

– Porque tu veio com vontade de criar coisa. Teus pés vieram asas. Não tinha mais lugar pra mim.

Dona Ida calçou a sandália e, depois de abraço longo, virou sombra. Ninguém mais viveu descalço. Nasceram sandálias nos pés dos meninos.

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