O arlequim

sadclown

Dado que, mais uma vez, seria só aquele corpo podre arreganhado no palco, esquivava-se dos espelhos, das luzes, e apenas punha a velha roupa colorida, revirada em bolores, o nariz rubro-sem-sangue dos anos, a maquiagem, os olhos mudos de espirro. Nenhuma novidade na carne amargurada do arlequim, denúncia do riso mascarado com que se movia pelo mundo, pensando nas sobras de um paraíso vislumbrado em sonho, e que se penduravam, na realidade, como navio em porra submerso: náusea medonha. A vida era um circo e o seu número, único:

— E o suicida? – sondava o público – Sabem o que bolou na madrugada passada?

— Nãããooo! – em uníssono, a arquibancada.

— Um suicídio!

Ha.

Ha.

Ha.

Todos aqueles clamores, urros, explosivos, cresciam e evocavam uma música perversa, pior do que o silêncio acre da casa em ordem de seus pais imaculados, ele, pequenino, nada de nada, em meio às memórias de um passado inábil à alegria, preso ao agora, barbeado pelos cacos de vidro dos choques corriqueiros, na ausência de uma navalha escondida em alguma valise do Tempo, ah, o Tempo, essa poeira que se desmancha nas mãos. Um homem, respirando sem descanso, vendo a vida-ruína, o delírio na própria cerimônia de admiração do desalinho que o rodeia, de se indagar se havia alguma lógica naquilo, um homem.

No camarim, escorregava com a caspa, o cuspe, o escarro. Seguia o rumo cego, absorvido pela pia do banheiro. É a isso que você chama caminho? As enxaquecas vinham e, de maneira bem cômoda, inseriam-se no dorso, na barriga e nas solas de seus pés. Saciava-se com aquilo, com o não regresso, andando sempre, embora não sabendo para onde, mas queimava, queimava-o o desespero da pura compreensão: eu sou uma piada. E ria de si mesmo, desgraciado. Ouvia-se a risada surda do arlequim no banheiro, o recurso raso em desacordo à melancolia de um homem sem.[1]

[1] O que se soma a esse sem? Não sei. Não cabe mais coisa nenhuma. É vaga chaga descascada da alma.

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