{a mulher que inventou a família}

Pray-or-Not-Pray-Feature-image2

Sentou à mesa num silêncio de morte, a família inteira.

A mesa agora era quieta. A mesma mesa que aquela mulher de olhos profundos surrava com as falanges dos dedos como fosse um martelo toda vez que sua raiva azedava seu riso corrente, quase sempre “bom dia”, “vá com deus”, “até a volta”.

João tinha os olhos sempre baixos, misto de timidez e traquinagem guardada, as mãos vadiando sobre as pernas magras, os pés balançando uma vontade de correr com seu galo, melhor amigo, pra longe dali. Fazia grande esforço pra comer com a mão certa, já que usar a esquerda, sua mão boa, lhe diziam sempre ser péssimo sinal, agradava `aquele cujo nome não se pronunciava nunca naquela casa. As telhas tão lá no alto que parecia uma igreja antiga.

Ida sentava com as pernas fechadas como se estivesse num banco de praça rodeada de olhos rapazes. As vergonhas lhe foram impostas desde cedo, as culpas de ainda antes, mas tinha os olhos altivos mais ocupados com o teto que com as coisas pedestres. A postura dura, reta como os pés de pau que não cresciam por ali, como suas decisões todas escondidas e bem a salvo da família. Seu quarto era o único que tinha chave.

Flora, a mãe, olhos profundos, aquela cujas falanges enegreceram de tanto surrar a madeira, numa ponta da mesa, fulminava qualquer interrupção do ritual de todos os dias. Sentavam à mesa com os pratos vazios, ficavam ali por não mais que trinta minutos, agradeciam pela refeição que não vinha mais um dia, os ossos saltando dos rostos sobre os outros, a farinha e o café já rareando, o desespero nascendo em árvore dentro da cabeça de Flora; se levantavam sorrisos enquadrados nos filhos morrendo de medo de ver a mãe chorando primeira vez na vida, lavavam os pratos sob os olhos fantasmas de um pai que não conheceram. Este que nunca saíra do retrato pintado e pendurado na cozinha. Aquele rosto quadrado de homem sem face assombrava as noites de João. Ida desdenhava.

Naquele dia Flora não dissera uma palavra depois do jantar. Nem graça nem guerra nem ameaça alguma dela se escutou. João e Ida se procuraram desarrumados.

– o que é que tem mãe? – joão quase engasgado.

– é nada, não. deve ser saudade. – joão olhou a irmã com olhos de não conhecer saudade. Nunca foi mais longe que a roça vizinha, que se estendia até onde seus olhos grandes podiam alcançar, sem casa nenhuma dentro. “Coisa mais sem lugar”, ele pensava sempre que escapulia pra aventura sozinho.

Flora não fizera o café. Ida, não sabendo o que fazer, não buscou o pote de farinha pra última refeição quase nada de todo dia. João arriscou um sussuro sem juízo.

– tô com fome, irmã. – e buscou os olhos de Ida, que tomou um susto de trazer de volta de dentro do quarto da mãe calada. “deve estar doente”, imaginou olhando pra João, que a entendia.

O sussurro de João alcançou os ouvidos de sua mãe. Ela levantou ligeira, se desvestiu, procurou um vestido preto de luto, se pôs viúva em cinco minutos, sempre sob a sombra da árvore crescendo dentro de João e Ida: a da agonia. Se olhou no espelho com olhos de adeus, cobriu o rosto com a renda negra, pisou firme até a sala, arrancou o retrato pintado com o homem que nunca esteve, e grunhiu para os filhos estatelados, peito arfando.

– Vamo cuidar de enterrar.

Ida acostumada a ir com a mãe a enterros distantes, fez a única coisa que sabia por certo: pegou a vela grossa guardada dentro de uma panela funda há muito inútil e olhou pra João pra que ele as acompanhasse. João assim o fez.

Flora cavou uma cova de caber gente inteira, pousou o retrato com cuidado, e numa mirada deu a ordem para que o casal cobrisse de terra o pai que nunca conheceram. João ameaçou chorar, mas Ida incendiou seu rosto com a expressão de “tu não é besta”. Ele jogou duas vezes a pá com a terra seca e tratou de enquadrar a mesma cara da irmã: dizendo nada. Ida completou o indispensável. Flora rezou em silêncio, se despiu do luto ali mesmo, sob a luz da vela, da lua cheia, e para o escândalo do umbuzeiro à beira da morte poucos metros de distância, jogou o que vestia em cima da cruz de galhos frágeis e atiçou fogo com a vela. Nua.

Ida e João se cobriram de censura, Flora sorriu olhando para os dois.

– Eu não tô doida, não. Tomei foi juízo. – autorizados, os dois sorriram acompanhando a mãe de volta à casa. Dentro dos três nascia uma árvore de alívio e recomeço.

Se pôs à mesa num silêncio de morte, a família inteira.

Sentados os três no mesmo banco do lado esquerdo, foram sorrindo calados até a boca não ter mais pra onde abrir. Um riso pleno, aéreo, lunar, de tudo resolvido. Só aí se eternizaram. Primeiro os braços se desmancharam, depois as pernas, por fim tronco e cabeças se dissolveram na madeira antiga. Foram se esvaindo, se diluindo… Viraram mesa. Desexistiram.

A mesa agora era quieta. A mesma mesa que aquela mulher de olhos profundos surrava com as falanges dos dedos como fosse um martelo toda vez que sua raiva azedava seu riso corrente, quase sempre “bom dia”, “vá com deus”, “adeus”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s