Lúcia era boa

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Lúcia era uma mulher pequena de ar infantil, apesar dos trinta e três anos sentidos, sua pele era tão gasta quanto a de uma colegial que não entrara na puberdade. Educada no tradicional Convento das Carmelitas Samaritanas, era o fiel retrato da benevolência e submissão. Grande foi o espanto de todos quando, terminados os estudos, não se decidiu pela vida religiosa. “Não vai ser freira, Lucinha?”- perguntou-lhe o tio no dia da formatura. “Não dou pra isso.”- disse sorrindo bobamente enquanto descascava uma bala. Passou a lecionar para as crianças do quinto ano do Educandário Gregório VI. Umas pestes! Aprontavam todas com Lúcia, era a pior turma do colégio. Nenhuma professora havia resistido às incontáveis malcriações dos pequenos. Nenhuma até aparecer Lúcia. A sala de aula era um caos e ela lá, paciente, como se nada estivesse acontecendo. Dava a lição, fazia a chamada sem levantar a voz, sem deixar de sorrir e sem demonstrar sequer uma gota de frustração. Casou-se com João por não saber contrariar: ele queria, ela o atendeu. João não era um homem ruim, gostava de Lúcia, sua Luci, mas sua natureza de passarinho engaiolado a cantar o obrigava a procurar nos bares e nas putas a emoção que a serenidade de Lúcia lhe tirava. Chegava em casa caindo de bêbado e cheirando a perfume barato de mulher ruim, assim diziam os vizinhos. Lúcia paciente, descalçava-lhe os sapatos, beijava-lhe a testa e ia dormir no sofá pra não incomodar-lhe o sono. Na manhã seguinte ao vê-la ali, pondo a mesa do café, inabalavelmente dócil, sentia raiva e remorso, um misto de sensações que lhe tirava o apetite. Comprava-lhe muitos presentes, uma forma de abrandar a culpa que sentia ante sua santa mulher. Lúcia não se importava com presentes, não tinha vícios, exigências, nem outros arroubos femininos. Hobby só possuía dois: ir às quatro missas semanais e visitar as freiras no convento em que estudou uma vez por mês, na cidade de Pindorama. As freirinhas a seguravam por lá, ela dizia. Passava com elas sempre o último fim de semana de cada mês, não ficando mais por causa de João e do trabalho. João não se importava com essa pequena ausência da esposa, coitada, não tinha amigas. Talvez realmente tivesse vocação para freira e estivesse se impondo um casamento contra a religiosa vocação. Saía na sexta, ao final da tarde, pegando o penúltimo ônibus.

-Já vai, dona Lúcia?

-Dê lembranças às irmãzinhas!

-Santa mulher!

-Como ela não há.

Lúcia respondia a tudo com um riso contido de quem teme a felicidade. Eram sempre as mesmas palavras que a acompanhavam no momento do embarque. Duas horas e meia de viagem a afastavam da benevolente obrigação, atender o apelo das freiras amigas que ansiavam pelo encontro.

Noite de sexta-feira.  Hoje tem fila na porta do bordel de dona Amália. É assim todo último fim de semana de cada mês, data da apresentação da prata da casa. Vestida de professora com uma palmatória de madeira em punho, que usava desmedidamente nos clientes a pedir mais, recitando versos em um primoroso latim, pronta para quem viesse, sua fama percorrera a região, a pequena Lu não cabia em si, grande furacão.

-Quem vai ser o primeiro?

Gritava ela assoprando fumaça e sorrindo diabólica. Cigarro numa mão, palmatória na outra. Gostava de machucar, de se impor. Incansável Lu.

Lúcia pequena, Lúcia boa, mulher como ela não há, prata da casa, a melhor do bordel de dona Amália, sempre a sorrir, numa convicção de existência que só ela entendia.

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