a redenção de Madalena

borboleta

A plateia lotada ouvia Pedro negar uma, duas, três vezes sua identidade de até meses antes.

– Meu nome é Pedro!

E uma chuva de aleluias, améns e glórias ensopava de abraços os braços pesados de Pedro.

– Meu nome é Pedro!

Ele tinha um rosto de quem havia sofrido muito, corpo grande quase quadrado de fortaleza.

– Meu nome é Pedro!

Os braços longos desajeitados e a postura curvada lhe davam um aspecto de muitos anos mais de vida que aquilo que propagava em testemunho. Parecia fazer muita força pra se manter de pé, trazia no coração uma vontade de ser e fazer parte que muitos duvidavam de sua história repetida à exaustão para o delírio de plateias cada vez maiores.

Ao chegar em casa, Pedro desarma. O peito estufa, as mãos fazem caminhos improváveis no ar, e ele perde um quarto da idade que parece. Segue o corredor sem luz até o quarto, confere tudo impecável, sóbrio e irrepreensível à porta escura descansando a mão na maçaneta marfim, o teto mais uma vez parece força-lo contra o chão, vergando sua vontade de vida. Ele solta a porta grave, olha para o fim do corredor, refaz a postura de saber quem é, e pisa pesado até o fim do caminho onde jaz outra porta. Passa a mão à altura da fechadura à procura da chave. Mas, como quem se nega, não olha pra baixo pra não perceber o óbvio: a coisa de abrir passado não está ao alcance da mão. Ele repete o gesto com a mão procurando a chave uma, duas, três vezes. Encosta a testa na porta, ameaça um choro.

– Não!

Recua em passos firmes alguns metros atrás e corre ombro e corpo pedra à frente. Arrebenta a porta com a vontade de meses. Já dentro do quarto segredo, seus olhos passeiam cheios, enquanto a boca treme e sorri de saudade de si. Suas coisas ali escondidas do mundo. Suas roupas de casa, de rua, de festa e de amar todas lá empoeirando e morrendo todos os dias. Desfila ligeiro até a cômoda de se arrumar, se senta com a certeza de sempre.

– Vai melhorar.

A mão alcança o estojo de arrumar o rosto, e a postura cresce alguns centímetros como já não fosse alto o bastante, Pedro. Até sorri. Uma paz toma as rédeas de suas mãos suadas, vai se preparar para o último golpe.

Rosto pronto, corpo nu, de pé em frente ao espelho, ele é tomado por um horror que assalta a paz de suas mãos, a alegria de seu rosto bom. Está decidido. Não sofre mais um dia. Corre pro banheiro e, atrás dos canos enegrecendo de um vazamento atrás do outro, encontra a antiga navalha de proteção. Caminha devagar para a banheira branca que mal lhe cabe, navalha na mão, olhos vidrados. É o certo a se fazer.

[horas depois, a reestreia]

Pedro sobe ao palco, entra em cena como nunca antes jamais o viram: vestes brancas, um rosto transtornado por algum segredo quase revelado. Se abre. Um coro, que varia entre o choro, o urro, palavras de repreensão e nojo, toma conta do salão. Enquanto Pedro escuta calado seus iguais fugirem porta afora deixando um rastro de pragas e maldição, seu membro, mutilado, pinta o chão do altar. Sua santidade, Pedro, não imaginava que tanto amor se dissiparia tão rápido. À sua frente uma senhora, envolvida em muitos panos e mais cabelos brancos, aos prantos só repete “meu filho! meu filho!”. Mais atrás, camisa abotoada até à forca, linho impecável de não ter aquele dinheiro todo pra uma roupa só, um homem alto, esguio, brilha negro e olhos pesarosos sobre Pedro. É a dose de ternura que Pedro esperava daqueles que até pouco o chamavam de irmão, de milagre. Lá atrás, já à beira da porta, um rosto de traços fortes, vestindo uma roupa quase nenhuma de cores ainda mais, acena o rosto negativamente enquanto enxuga uma lágrima pequena borrando a maquiagem perfeita:

– Madalena…

Era Mariana sofrendo pela amiga desfigurada escorrendo em gotas de sangue e choro silente lá à frente. Foi até o palco, envolveu o corpo nu de Madalena em seus braços no pano manchado de sangue, olhou no rosto já pálido da amiga e sumiram porta afora pra nunca mais.

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