vende-se [ela]

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– 200.
– 50.
– por menos de 80 não dou.

O homem amassou o nojo e deixou na mesa. A menina rasgou por dentro, a mãe não ousou lhe dirigir o olhar. Um braço rude arrastou a menina porta afora. O choro: mudo.

As roupas curtas e brilhantes cintilavam a noite, “Você será nossa estrela hoje, querida” diziam-lhe as mais velhas enquanto a aprontavam baixando o olhar pesaroso de cúmplice compaixão. Eram conhecedoras do futuro sofrimento, afinal, por todas elas antes sentido. Muda e resignada de sua sina, tremia calada enquanto as mãos nervosas maquiavam, giravam e a deixavam vendível. As marcas das surras daquelas últimas semanas ainda doíam, mas nada agora lhe faria sentir. Era forte, a mais velha de cinco irmãos, já beirando os 12 anos, idade em que ali se forjava mulheres. Tremia, não era o frio, não era o choro preso, nem mesmo a angústia dos pesadelos contados por bocas de avisar, apenas tremia. Uma voz rasgou sibilante a cortina de fumaça e tensão do cubículo:

– Terminaram?
– Já sim. A menina tá pronta. Mas será que não…

Não teve boca de completar. Claro que não, a resposta seria sempre não, não havia o que discutir. Beijou a testa da criança, sendo ela outra criança com dois anos a mais de maturidade, peito carregado de sofrer, murmurou-lhe maternalmente em seu ouvido o repetido conselho dado em tempos assim:

– Não diga nada meu bem. Apenas seja boazinha e faça o que lhe pedirem, assim tudo passa mais rápido. Esqueça a dor, não olhe para ele e mentalmente faça uma longa oração. Quando tudo tiver acabado, irei te pegar e te lavar. Rezarei para que quem te comprou o direito de inaugurar não seja tão ruim. Agora vai.

Soltou a mão da menina. Não se olharam, mas ritmaram silenciosamente uma única oração.

Nunca entendeu porque diziam que havia caído na vida. A jogaram nela. Como tantas outras, aos poucos foi deixando o juízo nos leitos sebosos que obrigavam suas pernas abrir. Sempre que um homem tentava lhe encarar, só lembrava de implorar ao ser levada e de ter tentado em vão fitar os olhos da mãe no momento de separação, como um sopro pedido pra aliviar ferida aberta e sem jeito. Ela não devolvera o olhar. Pela janela, os olhos opacos de sua mãe miravam as parcas galinhas ciscando no terreiro, enquanto ela, verdadeiro animal naquele momento, era arrastada. “Só lembrava” é forma de expressar. Remoía cada detalhe todos os dias. Detalhes esses que eram agora a vida dela e lhe consumiam a sanidade pouca. Cerrava os dentes de raiva, numa sensação de quase quebrá-los. Por volta do meio-dia estava numa rua estranha. Cheiro estranho e mosca. Eram tantas que pareciam ajudar os transeuntes a se locomover. Alguns dias, descobriu que o cheiro da rua, era da água usada para lavar os copos dos bares, que sem esgoto adequado, eram atirados às calçadas, tornando tudo pegajoso. E várias vezes gerava confusão ao acertar alguém. Confusão. Isso era corriqueiro. Mulheres traídas em busca dos maridos, que arrumavam a confusão com elas, putas. Cabelos puxados, unhadas, roupas rasgadas, tetas na rua, à vergonha de muitas e delírio dos homens pervertidos. Nesse ambiente, numa tarde morna de quarta-feira, quando te jogam algo, o bom é rumar de volta. Mas ela não, optou por correr descalça, vento arrastando a saia pra trás.

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