O céu que comia olhos

belinha

Mas que porra… Belinha não cria em mim, quando dizia que a vida é um absurdo. Belinha era minha vizinha de barraco, a menininha mais pura do subúrbio. Vivia sempre sorrindo, embora nunca soubesse com que razão, e achava que eu era cheio de depressimismo. Depressimismo era, sem dúvida, a palavra mais bela que Belinha conhecia. Não aprendeu na TV, porque não era dona de nenhuma. Não é que não a quisesse, não – é que o dinheiro mal sobrava pra comida. Bem, acho que depressimismo ela ouviu de alguém, ou criou. Belinha criava várias coisas. Felicidade, por exemplo, mesmo onde não havia. Lembro-me que, depois que o sol morria e as luzes da rua se acendiam ríspidas, empalidecendo o céu glorioso do mundo, eu olhava cansado em direção aos passeios, com sua carga de lâmpadas e homens alegres, bem enroupados, debochando do mundo, e uma arma invisível avizinhando a cachola, ao passo que ela, em amargosa sincronia, sorria, escancarava a boca, enrolada em molambo velho, encardido, esburacado, o queixo preso no seio, num empenho vão de abrandar o gelo cruel que quebrava as esquinas. O murmúrio, os berros, as conversas cruzadas. A única ilha de silêncio marchava ao meu lado: ela, perplexa. Você mirasse pra cima e os prédios encobrindo a glória. Lá suspensos, os pássaros de rodas passeavam. Era denúncia de um lugar de pouso logo ali. A cada decolagem e descida, quando um avião se inclinava demais pra um dos lados, eu implorava uma queda. Ela, a cara derramada em choro deslumbrado, apenas aplaudia. Fica-se cego, sim, com os clarões, surdo com os ruídos, com os acenos cínicos sublinhando “só pra quem pode”. Belinha, miserando-mísero-minguado, não percebia que a haviam cuspido, que a haviam colocado num universo em que era exilada, personagem sempre de um cenário para o qual não se preparou nem compreendia, como se apenas irrompesse de um palco, encenando algo que nem em sonho conhecia, sem nenhuma espécie de ensaio. Belinha não sabia, acima das demais ingenuidades, que a vida é o rascunho de um rascunho. Tudo se vive agora, Belinha, de primeira, e desconhecemos o amanhã. Falava a ela, mas de pouco valia. Era besouro zumbindo em duelo com o vidro. Não enxergava nada, apenas seguia o impulso desordenado da corrida. A ignorância como dádiva…

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2 comentários sobre “O céu que comia olhos

  1. Este brilhante escritor moderno surprrende-me com a leveza que caneta alma e imprime sutileza à memória cotidiana. Este “céu que comia olhos” devora-me ao âmago das reminiscências e suga-me ao imprevisível universo do humano viver. Esplêndido, Victor.

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