Contos de avó

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_ Benção, vó.

Apenas ouvia o ‘Deus te ajude’ antes de ventar à cozinha em busca daquele café doce naquelas xícaras amarelas de porcelana barata, que de tão ajeitadas na mesa, pareciam esperar as visitas amiúde que se apequenaram mais ainda com a passagem do tempo. Bebia o café queimando os lábios, sentado com as pernas balançando na cadeira, de tão moleque com era.

E seguia o momento com o indicador abraçado pela mão já velha, passeavam em passos curtos pelo terreiro, ele pelo andar desajeitado dos poucos anos, ela pelo inverso. Olhavam as flores bem cuidadas, as galinhas que teriam a cabeça separadas do pescoço em cortes precisos, mas escondidos do pequeno que marejava o olho e segunda a crendice popular, atrapalhava o animal morrer. Entrecortava com perguntas de criança sapeca, enquanto ela construía histórias a ajeitar o lenço preto, luto do marido recém morto, à cabeça que já não escondia que o tempo passara e cobria de brancura.

Daqueles santos tão imóveis na parede velados por uma chama que parecia eterna, onde, mirados às imagens, ela o ensinara a rezar o terço, e rezar sempre para Deus ajudar, para chuva parar, para dor ceder, para a vida passar devagar.

Ele cresceu se fazendo presente. Anos mais tarde, quando o Alzheimer comesse as memórias mais novas, os olhos do menino que ventava seriam presente, passado e futuro. A voz dele era a única a fazê-la despertar, no sempre doce e rotineiro “benção, vó”.

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