Homens de bem

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José tinha essa agonia inventando lonjuras de gente ao lado. Não se deixava aproximar muito, como que temendo o que fossem encontrar dentro dele que ele sequer conhecia. Alguns raros encontros ligeiros aqui e ali, um cumprimento risonho seguido de algum comentário de ironia fina teciam um ar de inteligência inútil, uma sapiência desprezada como referência, mas ainda admirada por muitos.

José arrogava para si a capacidade de viver só. A muito poucos admitia uma pretensa autossuficiência: “me basto”. Mas enquanto tecia os dias inventando esses encontros ao acaso na padaria, no mercado, na praça quase vazia de sombra e gente, escondia-se, na verdade, de si.

Na escola não fizera amigos. Não era escolhido para o futebol do intervalo, apesar de ser o melhor técnico que nenhum time jamais teria. Não era o mais engraçado, nem o mais bonito. Nem fazia ideia do que achavam dele. Quase teve uma namoradinha. Era feliz.

Estudou o mínimo possível, a escola o desaprendia mais do que podia suportar. Assim que conseguiu um trabalho de gente sã, de nove às cinco, salário mais que mínimo, sossegou suas vontades de dominar o mundo, de viajar o mundo, de mudar tudo de errado ao redor.

Pelo menos o de errado do terreno para fora. Construiu sua casa “Com minhas próprias mãos! Do alicerce ao sótão!”, dizia ele, enquanto acentuava a última sílaba de “sótão”, mania de poeta em segredo. Escrevia versos nas ripas do telhado, de modo que jamais fossem lidas antes dele morrer. Gastava dias inteiros procurando e consertando as menores imperfeições. Da instalação elétrica ao telhado à moda antiga, nada lhe escapava.

Numa noite, depois de um passeio discreto à casa de algum caso de afetos bem escondidos, num caminho que fazia sempre, deu de cara com um sujeito que se colocou entre ele e sua casa, a poucos minutos de seus passos largos dali, sem dizer palavra. José ameaçou fazer o caminho de volta, sem entender o que acontecia, mas encontrou outro homem atravessando a passagem do beco. Não teve tempo de dizer nada, José. Pacífico até no olhar, nunca despertara o ódio de ninguém.

– Viadinho… – disse um ódio montado em voz.

– Gosta de pau, é? E desse? – foi quando José levou a primeira paulada. Atingido por trás nas costelas, a dor tamanha estreitou seu redor nos olhos. Os homens gargalhavam.

– Com tanta mulher por aí, rapaz… Um viadinho nessa idade… Vai aprender agora a ser um homem de bem, tá entendendo? – e ele sentiu a segunda pancada. Dessa vez, atingido numa das maçãs do rosto, desacordou. Só voltou a si sentindo sua calça sendo abaixada violentamente por um dos homens, enquanto o outro o segurava pelos braços. Tentou gritar, José, mas num torpor que o impedia, ia perdendo os sentidos quando recebeu um safanão que derrubou sua caneta do bolso da camisa azul de botão, como todas as outras. Único presente de seu pai ausente, a caneta. Ganhou o presente aos sete anos, depois de uma boa nota em português. Nunca entendeu o gesto, era sua obrigação dizer no papel coisas que todos entendessem.

Enquanto percebeu seu corpo contraindo de repulsa e horror, manteve os olhos fixos na sua única memória da infância. Surpreendeu os homens num safanão, última reserva de suas forças e correu para recuperar a caneta. Um deles chutou o objeto para longe. O rosto de José ganhou contornos de monstro, seus pelos arrepiaram feito bicho acuado. Ele alcançou a caneta e perfurou primeiro os olhos e depois a língua de seus carrascos. Se recompôs e assobiou uma melodia doce enquanto limpava a caneta na camisa azul de botão, como todas as outras.

 

 

 

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Um comentário sobre “Homens de bem

  1. Leo, seus finais sempre me surpreende, nem tento mais imagina-los, simplesmente espero o que virá e o que vem é sempre muito bom.
    Um abraço,
    Lúcia

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