{dia de parque}

luzesparque

Tinha posto a melhor roupa, Pedro. Um pequeno furo perto da axila escondido com esforço, a bainha da calça encurtada para esconder os rasgos. Se olhava no espelho orgulhoso. Era dia de conhecer o parque recém-chegado à cidade. Fizera planos por semanas. Primeiro a roda-gigante, o que lhe dava mais medo e mais vontade, depois o resto.

A mãe de Pedro suava testa e braços firmes esfregando o chão de casa. Pedro não entendia nem enxergava a sujeira que ela ainda insistia em apagar da sala. Foi até a mãe, ansioso pelo combinado com seu pai, a hora se adiantava ligeira. Ela demorou um pouco de subir os olhos sobre o filho, engolida em listar as obrigações do dia seguinte, precisava voltar a dançar. Quando viu o filho que veio antes da hora ao mundo, e que permaneceu assim sempre adiantado em tudo nos longos 8 anos de vida, seu olhar dividiu o mundo em dois: amor e dor.

– Coração, pode ser que ele num chegue logo…

– Tô bonito, mãe?

– Tá lindo, coração. Tá lindo.

Ela limpou o rosto no vestido gasto e deitou um beijo na testa de Pedro. Ele voltou para o quarto, espelho a frente, refazendo planos, procurando algum furo que deixara passar na primeira meia hora de espera. Seu pai prometia muito pouco, mas mantinha a palavra. Tinha um abraço bom, olhos severos e limpos quase sempre.

A mãe de Pedro conferiu o relógio: uma hora de atraso. Não era comum tanta demora, apertou o peito de uma preocupação formal. Seu companheiro de antes se convertera num estranho preso em si mesmo, se consumindo por não conseguir mais clientes na pequena eletrônica que manteve por mais de dez anos. Andava atrás de trabalho e cada vez mais distante dela.

– Pedrinho!

Um baque na porta assustou o menino.

– Pedrinho!

A mulher parou no meio da cozinha, encarando a porta.

– É painho!

Pedro correu para abrir a porta emoldurando o melhor sorriso. Quando abriu, seu pai caiu aos seus pés. O hálito tomou conta da casa. O sorriso de Pedro se desfez, a mulher engoliu o choro e se apressou em colocar o homem para dentro de casa.

– Pedrinho… Filho, o dinheiro…

Seu pai quase disse, Pedro entendeu. Voltou uma última vez para a frente do espelho. A expressão resolvida. Passou pela mãe tentando levantar o homem grande, lhe deu um beijo na testa demorado e saiu.

– Se preocupe não, mãe.

O parque havia pousado num terreno a poucos minutos numa passada de menino. A mãe não segurou mais o choro. Botou o homem na cama e foi tomar um banho.

Pedro chegara ao parque e só então se dava conta de quantas luzes coloridas. Espremia um pouco os olhos para ver com mais nitidez, que os óculos só ano que vem. Mas as luzes ficavam mais bonitas desfocadas. Depois de ver tudo que queria, e sorrir de ver outros meninos mais vestidos, mais calçados sorrindo nos brinquedos que ele já conhecia de nome e de olhar, resolveu que era hora de voltar para casa.

Antes das luzes se apagassem de lonjura, Pedro ouviu outros meninos rindo barato. Em seguida um barulho de água. Eram três moleques mais descalços, menos vestidos, risos ainda maiores que os que Pedro ouvira logo ali alguns metros antes. Pulavam feito festa numa poça rasa d’água, muito mais lama que água. Eles o avistaram, calaram alguns segundos, Pedro se aproximou.

A mãe já vinha contando os trocados para o filho relembrar o gosto de uma infância que ela não teve. Contou dois brinquedos e um algodão doce. Passou a semana sendo indagada se existia isso mesmo de um algodão com gosto bom. Ao dobrar a esquina, avistou Pedro pulando feliz com a lama até os joelhos, e viu alguns metros para o lado a roupa toda dobrada, impecável, sobre o par de sapatos gastos, presentes todos dela. Chorou pela segunda vez. Pedro a alcançou num abraço.

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