{nua nos pés: Ana}

mata-seca

Ela andava descalça numa calçada queimando de tarde quente. Causava assalto aos olhos meninos como conseguia andar tão vagarosa com o sol enxotando a rua toda porta adentro das casinhas cobertas de telhas quase pretas.

Ao vê-la ali serena, dois meninos julgaram o sol pelos pés dela. Trocaram um riso de “agora dá” e puseram os pés, chinelos gastos, rua afora. Gritaram os outros numa esquina quase ali, esperando a quentura baixar:

– bora! bora!

De volta receberam olhares de desdém e incredulidade.

Ela seguia encarnando a herança de pisotear o improvável. Suava o vestido feito de próprias mãos, em alguma tarde de desinventar tédio na máquina deixada como único presente pela avó que se pendurou numa mangueira, antes de alcançar seu centenário. À época, ninguém entendeu como a velha alcançou força, corda, galho para resolver a pendência. Para ela, era banal. Ana não comungava dos assombros do povo dali. Era, ela mesma, alvo de cochichos atormentados. Essa praga de vigiar a vida alheia que acometera o povo de lá mais agudo depois da chegada dessa avó, muitos e muitos e muitos anos antes, barriga apontando parto breve, desacompanhada, mãos grossas inventando mais tempo de vida e roçado do que o rosto jamais se dobraria. Ana foi a primeira a encontrá-la, depois de finda, balançando na mangueira. Primeiro um susto, depois um riso serenando o inevitável, e o colo deitando o amor infinito num rosto riscado bem raro, traços de uma linhagem desconhecida dali e dos redores.

Os meninos, conformados, decidiram um jogo de dois. Bola de meia no chão de terra severa. Tiraram os pés dos chinelos rasos pra fazer os gols, de um lado e de outro. Ana observou a cena, dúbia. Se deteve para ver se a ousadia duraria. Não mais que alguns passos de um e de outro, contando os passos do campo imaginário para postar as traves feitas de chinelo. Correram de volta para a sombra largando bola, chinelo, chão e brinquedo pra trás. Sentaram magrinhos no passeio caminho de Ana, escancarando os pés para cima, implorando alívio ao deus possível: o vento. Ela gargalhou balançando o vestido roto, e uma brisa quase noite de tão bem calar quentura lambeu pés e rostos e cabelos rebeldes dos meninos sentados.

Eram pés grossos de andar na roça, de subir em árvore de fugas frequentes a lugares de chão muito mais rude que o que se via nas ruas dali. Mas ninguém via realidade de achar que bastava isso para explicar a convivência fraterna de Ana com os calores febris do lugar esquecido.

Vandalizava as portas das casas do lugar com palavras soltas. Ou dizia ou riscava com alguma coisa que fizesse vermelho. “partir”, “tardei”, “aonde”, “sem remédio”. Louca, puta, bruxa, vadia. Bocas pequenas ameaçavam violências. Ana se ria.

À distância, muitos diziam, podia se ver a sombra de uma velha côncava sempre a espreita dos passos vagorosos de Ana. E o vento fugia para a mangueira que nunca morria, ao contrário de tanta coisa naquele deserto de tudo, quando ela subia, descalça sempre, e ficava por lá horas a fio conversando cochichos e risos de escárnio sabe-se lá com que espíritos, com que intentos.

Ela andava descalça numa calçada queimando de tarde quente. Causava assalto aos olhos meninos como conseguia andar tão vagarosa com o sol enxotando a rua toda porta adentro das casinhas cobertas de telhas pretas.

Depois de outra tarde vadiando nada cheia de segredos pelas ruas onde ninguém andava pés nus, Ana voltava para casa. No degrau fronteira entre sua casa sozinha e o mundo, um par de calçar os pés dela esperava. Ela olhou para baixo, pisou neles, ritual, e entrou para fazer cheirar o o último café antes da noite. Esperando à beira da janela apontada para os fundos do terreno, uma figura segurando numa mão uma corda, na outra a lenha para fazer fogo. Ana sorriu, imorrível.

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