carne: apelo (+18)

cama

Era durante o sono que ela melhor ouvia sua voz. Era bebendo do sono dele que ela se confessava. Encostava a nuca perto do seu nariz, enquanto uma respiração quente pincelava sonhos em sua pele. Havia nódoas nos olhos de ambos, e no lençol. Ela se demorou nesses carinhos pequenos, tentando descobrir até quando ele ficaria ali fingindo um sono tardio, que já não era mais. Apertou o mais que pode o corpo contra o dele, e se virou passando a orelha pequena em seus olhos. Antes que ele sorrisse, ela sussurrou: “me dá tua primeira voz do dia”. E exibiu os pelos à luz matinal: da nuca às coxas.

Ele, ainda com a língua anoitecida, sussurrou: “minha primeira voz já nasceu pregada em teus ouvidos. tu conheceu ela antes de mim.”. Ela riu aquele riso de rio estreito, águas profanas, enquanto se virava pra ele pra receber, olhos juntos, o calor do corpo descansado da noite anterior. Dizendo qualquer coisa com palavra nenhuma, dizendo tudo que ele queria mas sem bater os lábios, sem prender verbo nenhum na boca morna de sempre.

Nunca prendia. Tinha voz solta, teimosa. Em aparente silêncio, era no riso que seu verbo entrava em desvario. Tinha os olhos inchados de confissão, dentes mordendo nervosos censura. E sabia o que isso fazia com ele. Começava ele num olhar de pergunta, na respiração quase ofegante apesar do repouso. E ela ali repetindo, serpenteando quase quieta, só dizendo sem dizer, só se rindo em chama branda, tramando os cabelos entre os dedos inquietos. Mediam força na teimosia de quem quebraria o silêncio primeiro. quem se dobraria ao apelo do outro.

Fossem grãos, ele aparava e punha pra dentro cada riso dela. Em pequenas doses, sentindo o gosto que escorria. Ela questionou sua presença ali. Ele tinha prometido não voltar, mas o lençol soltava um cheiro que ele não esquecia, engolindo qualquer memória, qualquer traço de promessa ou razão.

– quer que eu vá embora?

Ela não respondia, mas seguia com o riso emoldurando as vontades.

– quer que eu fique?

Ela não respondia. E não restava a ele a alternativa de perguntar com o corpo.

– diz agora.

E ela quieta, fechada em riso labial.

– se meu caminho é a porta. diz.

E ela calada amolecendo ali, amansando nos lençóis antes frios. Ligeira, deitou o riso fora do rosto.

– dança de uma vez o caminho de meus vãos. não quero tua voz. tua carne maquinando outras de mim me assombra. nosso verbo morreu de gasto. tu sabe disso. não é mais a palavra que nos acode. não volta nunca mais, fica.

Ele árido. Ela acendeu grave como nunca antes. Descobria a cama puxando o lençol amarelado de manhãs que nunca mais. Ele era só olhos grandes. Ela torcia o lençol num gesto fácil, como se tivesse feito aquilo mil vezes antes. Juntou os próprios pulsos, e pediu um nó e outro por cima. Desceu até os calcanhares e juntou os pés morenos em um tronco só, os amarrasse ainda com mais força. Antecipando qualquer espernear. As paredes escorriam suadas. Foi quando ele ameaçou falar. Ela lançou um olhar só. Ele não prosseguiu. Ela se pôs de bruços, em oferta, e disse:

– vai.

Com força. Repetidamente. Rangidos, chiados, desalinho. O som baque surdo silenciando o fim. Vagar. Tanto mais vontade ela tinha. Gemia. E ria em seguida, quase bruxa. Depois de encharcarem a cama consumida, ela o procurou com olhos lassos. O viu jogar a camisa sobre o ombro uma última vez e bater a porta. Se desatou. Seu reino era livre.

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