{amor minguante}

telhado

acordei sobressaltado. teu rastro murmúrio dominando a casa. acordei como queda. a mesa da cozinha posta com teus olhos à míngua. meu peito quase fugia de tanta agonia por te ver assim. nua, os pés acumulando a sujeira do nosso lugar ao abrigo do mundo. “nossa casa vai ser linda. nosso refúgio da dor”, tua boca me repetia com tanta verdade quase sempre nas idas e vindas aos pontos de ônibus, trajetos inevitáveis em nossos lugares de passagem. “nosso refúgio da dor”, tu me dizia. não demoraria pra eu descobrir a injustiça do mundo. acreditar é uma enfermidade. só pode ser.

nua. os pés acumulando a sujeira do nosso castelo sem torre. as mãos espalmadas procurando algum lugar em teu rosto escorrendo peito abaixo. desencontradas tuas mãos. tatearam a mesa grossa de madeira velha. a gente escolheu a mesa pelo cheiro, “lembra?”. minha voz não arriscava se afastar de mim pra te alcançar. adivinhava alguma devastação, algum deserto, alguma terra em extinção. tua boca quieta e seca de semicerrada de tanto tempo teu desaguando pela casa. nosso canto longe da guerra. tu sentou de um lado da mesa que não era o teu. no meio do meu caminho pra te abraçar como quem se faz presente, teus olhos. a mesa posta com teus olhos de mágoa.

sentei também. a mesa pequena “pra evitar fronteiras pros braços”, como tu bem disse um infinito tempo antes, virou um silêncio, um abandono, um animal morto à beira da estrada. eu ali mãos de pânico, suando uma tontura que não passava nunca. tudo por ver a mesa posta com teus olhos de mágoa. olhei pros lados fingindo nosso cotidiano de sempre, procurando o redor como calma pra instantes de estar cego e saber muito bem havia algo soprando um vento de viés no teu peito de estrelas. as pequenas manchas que você detestava. eu só via um peito de estrelas e tu achava graça.

minhas pernas acusaram logo o corpo sob ataque. o movimento imitando tremer que tantas vezes tu virou em brincadeira só pra não me aborrecer a mania desde os tempos do colégio me conferindo o charme dos agoniados. minhas pernas tremendo de acusar o “eu sei” receberam só a tua perna estancando sem negociação a minha fuga dali, a minha boca voz calada falando através delas. e aí eu vi teus olhos sujos. nunca os vira assim antes. nunca.

eram olhos cheios de choro. o choro preso que eu só conhecia de tuas confissões sob nenhuma luz quando era eu quem se aninhava em teu colo sempre afago porto pra minhas agonias tão cotidianas. tu dizia que quando eu falava das minhas dores, teus olhos ficavam cheios de choro. e presos. presos pra não subverter a ordem da dor, que era, por defeito e justiça, minha, tão grande em tu, mas sem ganhar o facho de luz do choro jogando ela pra fora.

a luz sussurrando já todas as brechas da casa mostrava as garras por baixo da porta. por um momento só imaginei que você levantava pra fazer de conta que ia fazer o café, sabendo que eu interromperia o absurdo. teu café era horrível. ríamos disso. juntos. mas garantíamos nosso jogo todos os dias: você levantando só pra eu correr à frente. quando a luz diminuiu nuvem ligeira, beiravam o chão teus olhos perdidos de agora.

o mundo fora do lugar, fui eu a levantar último ato de desespero. teus olhos agora de cegar todos os nós tão desatados ao longos dos anos procuraram o outro lado do cômodo, telhas baixas vias de passagem pro “mundo em pedaços miúdos visitarem nossa mesa bonita”, eu te disse num dia daqueles de ficar só observando as menores coisas, as maiores. depois do meu longo discurso sobre coisa nenhuma de alguma beleza que te fazia rir com teus… meu deus, teus olhos. tu disse só se rindo “bagaços. lindos bagaços”.

foi assim a manhã em que descobri a nossa mesa de madeira antiga posta com teus olhos à míngua. tu achou de pensar que eu não estava mais ali. eu estava. só não tinha mais força pra te convencer do que me era tão banal, tão posto e certo como respirar.

– me olha

– não te vejo mais aqui

virei um porta-retrato na gaveta.

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