O jardim das flores do amanhã

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Por milênios tudo está destinado a ser da terra, de novo e de novo. Lá nos primórdios era em meio à floresta, base de morro… Decomposição lenta.

Como tudo, ganhou tecnologias próprias e adornos exagerados e operadores com pás, escavadeiras, cortes precisos, trabalho minucioso da mais estranha das profissões. E de um dos que assim vive, poderia dizer que seus dias era de minhoca, cobra-de-duas-cabeças, toupeiras e toda a sorte de animal fossorial. Vivia a cavucar a terra e de esperar os donos que chegavam carregados. Parte fácil. Tapar de volta era onde tinha dor de cansaço. Lágrima dos outros pesa e uma vida não foi suficiente a acostumar. Por vezes queria ser esses bichinhos que cavam pra casa e comida. No final nem era diferente, só enterrando dores conseguiu casa e comida e a alcunha de derradeiro encontro.

Das horas de não alisar terra, era zelo. Arrancava ervas daninhas do campo em frestas de cimento, limpava a sujeira em espera de sorriso, resposta, carinho apenas de ser menos odioso aquele lugar. Mas gostava mesmo de vazio. Era paz. Com gente era olheiro, via tons escuros de roupas contrastando com toda cor de flor, com toda sorte de material. Tanto tempo ali o fez perceber que os que traziam de plástico demoravam na visita de volta, com as de verdade não se demoravam em voltar. Enfim, as pessoas enfeitam cemitério com flor para amenizar a tristeza de quem vive. Quem tá na terra não veria a beleza das raízes.

Por vezes pensava no dia de passar seu posto. Queria vestir um terno bonito e o cabelo alinhado com brilhantina. Uma bandeira do Olaria. Tudo opcional, seu desejo mais secreto era ter quem levasse flores. As de verdade.

 

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2 comentários sobre “O jardim das flores do amanhã

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