{joão e maria: parapeito}

chãoparapeito

era um outono brando. de sempre. que ali havia pouco outono. a não ser algumas plantas denunciando a existência dessa estação em lugar ou muito quente ou muito frio. seco.

joão sofria de sentir pouco. dizia mais das coisas do que de si, sempre. variava a atenção entre o horror de se enxergar no espelho das horas vazias e a fuga de aceitar a finitude das coisas, da gente, dos dias. sofria de apego às luzes. pouco, é verdade. mas pra quem anda quase sem notar o caminho, pra quem vive quase sem notar dor, afeto, e pesar, sofrer de apego a algo fugidio, rebelde, e escapa-mãos feito a luz e seus fachos desenhando a vida alheia nas paredes de dentro de sua casa, esse apego percebido era vastidão.

maria padecia de sentir em excesso. vivia mais quando no meio de muita gente, dançava, cantava, contava coisas que existiam e ainda mais as que não, sorria quase sempre gargalhada exibindo pescoço e colo e orelhas e nuca aninhada em grossos fios, fazendo de conta que era o último instante de vida entre suas coxas, que eram as últimas invenções escorrendo de sua língua ligeira de envolver a gente toda em seus enredos. era seu lugar de aumentar o dentro, de engolir os olhos alheios como sustento.

joão era um pedaço de silêncio deitado num parque quase deserto num dia frio, calado. os melhores dias de tentar capturar luz dentro de si. nos braços da luz difusa destes dias, as folhas finas da árvore velha quase faziam joão sorrir. quieto, quase nada o tiraria do transe que o levava pra bem longe de si, se iludia ele.

maria via alguma graça no frio, apesar da preferência pelo sol em vez das nuvens. gostava de ter que se cobrir com muitos panos. era a chance de botar as muitas cores texturas que guardava no móvel de madeira escura cheiro forte no quarto de paredes boas de olhar, um papel de parede amarelando o antigo branco em torno de flores e pedras sempre juntas uma ladeando a outra. ela passava ali só por trajeto, que tinha uma casa pra ir, com uns amigos dentro.

joão sentiu o mundo desabando escombros nele. uma pancada o extraiu do diálogo com o tempo: “demora mais”. uma pancada na perna magra cobrindo o chão terra do pé da árvore quase caduca, e um gemido surdo mais de susto que de dor escapou do peito. depois da queda dela, sobreveio a voz de ventania firme de maria.

– desculpa, moço! perdão!

ao silêncio olhos de terror de joão, ela seguiu beirando constrangimento.

– eu ando aluada prestando atenção em árvore, dá nisso. desculpa mesmo.

de seguir pedaço de silêncio à boca e peito, joão, maria acabou encontrando lugar nos olhos-de-estar-perdido dele. ele esqueceu da luz. ela passou a mão na parte da perna atacada em seu tropeço, num gesto de despedida e afeto ligeiro, e levantou. ele tirou a mão suja de chão do vazio e tocou no braço dela.

o instante parapeito de depois.

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