Coroadas em tons de azeviche, todas elas: rainhas.

Nascera rainha sem saber e, por desconhecer sua sina e reinado, emudeceu ante os que não portavam o belo e crescente adereço que lhe concedia suntuosa imponência. Disseram-lhe feia, culpavam-lhe de algo que não-sabia-o-quê, riam-se de seu passar, ela era errada, não havia o que discutir. Uns sentiam pena. Pena de quê? A maioria postava-se mesmo a rir, deboche cruel de habitual adesão. As mãos em concha colhiam pérolas salgadas que, silenciosamente, teimava em esconder. De mãe ninguém esconde nada! Ao ver sua pequena tão murcha e cabisbaixa, iya inquietou-se em achar solução e foi ter com os ditos sábios do lugar.

– Que há com minha menina? Todos a excluem e dela se põem a rir…

– Essa raiz é ruim! Cresce pra cima, pinta-se em tons de amora e isso não é certo. Aqui o destino da raiz é sempre para baixo e nossas cores do pálido ao pêssego, mais que isso não dá.

– Mas dessas raízes não podemos arrancá-la, de suas cores o que fazer? Minha pobre omobinrin não tem culpa. De onde vieram meus avós todos eram assim…

– Mas tu não é. Teu marido também não!

– Mas todos eram, vocês têm que me acreditar! Chegando aqui resolveram que misturar seria a melhor solução. Foi-se então nosso tom, jabuticaba-amora, apagado de tanto com o branco misturar, nossas raízes perdendo resistência e todo mundo ficando mais igual, mais aceito. Mas parece que com a menina não funcionou assim e ela agora carrega consigo tudo o que fomos.

– Adequemo-la então!

– E o que seria adequar?

Tiraram-lhe a coroa. Em terra de gente morna o que valia era ser igual. Rebaixaram sua majestade podando-lhe o topo, queriam a todo custo vê-la envergar. Sua raiz porém, negra, forte e insistente, teimava em crescer, para cima, sempre! Escondê-la era a mais viável solução. Roubaram-lhe o sol para sua cor azeviche não brilhar e ofuscar o todo que era opaco e chato. Raízes presas, de toda forma empurradas para baixo. As pessoas contentes, ela desapercebidamente, em olhos-de-não-dizer, morria, calada. Secaram-lhe tanto que nem as salgadas pérolas vinham-lhe mais beijar a face. Um dia, meio sem porquê, cansou-se de perecer ali, quieta, num canto. Não gostava dali, não deixaria-se ficar. Olhou-se no espelho e cortou tudo que os outros tinham moldado. Não era seu, não era ela. A mãe a surpreendeu sem espanto e num sorriso largo de quem previamente havia concedido bênção, só teve na boca, baixinho, um dizer:

– Sai, filha, que tu não é daqui. Tu é muito maior e mais bela que esse lugar!

Pisou firme sem olhar pra trás, cabeça erguida afrontando os passantes em seus cochichos. Alguns mais afoitos atreviam uma zombaria:

– Pra onde vais assim, tão sem rumo e descoberta? Agora que cortou tudo o sol te queimará mais, depois não tem retorno…

– Deixa queimar que viver aqui eu não quero mais.

E ela foi. Caminho não foi fácil, havia mais pedras que antes mas calçara-se de si e isso lhe bastava. O tempo passou e ela descobriu algo que nunca sentira: todo amor por ela própria. Estava livre, estava leve, era tudo que se permitia ser. Quão maravilhoso foi depois de tanta andança descobrir uma Terra, sua Terra, seu Orum. Cheia de gentes brilhando sem medo do sol, cabeças indumentadas de coroas soltas, ou em tranças, ou em panos das mais diversas cores. Aquele lugar, seu lugar, onde todas eram rainhas e ditavam confiantes suas leis.

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