amem, sobras

Capítulo I: Amem!
Capítulo II: meio gente meio coisa

Dos anos de guerrilha, só o peito arrasado deserto de sonho e vontade restara contando cicatrizes com os dedos de mãos e de pés de gente que nunca encontraria o rosto de dor onde deveria ter amar. No peito outrora campo de brasa certa apontando onde ir, agora letargia de um vencido. Na cabeça torta de envergar-se de cima a baixo descendo letra e lei sobre a mesma gente de sempre a sentir o peso de ordens antigas – cala boca! mão na parede! não me olha no olho! –, agora outra lhe oprimindo os ombros cabisbaixos: ame! amem!

Disse tanto que esqueceu o que dizia dentro essas letras poucas. Foi esquecendo da coisa de tanto dizer o verbo. Foi ganhando superfície a vontade, a precisão, a vaidade de se descobrir iluminado em tempos sombrios. Foi morrendo o homem, nascendo o muro para vontades alheias que não desse as mãos com a dele: amar.

As mãos agora perdidas nos trechos entre a barba, longa escondendo o peito como que cobrindo a máquina de amar, e os olhos, estes arregalados de não ver, de procurar sentido onde era pedra de saber exato. Havia mais entre o caminho entre o não dito e o dito do que ele podia conceber. Tudo agora era asfalto e parede. Tudo agora era coisa e trecho, trajeto, pedaço. Se esquecera o que era a coisa que juntava o nome “gente” com a coisa que é o que o nome diz.

Capítulo III: réquiem para Serafim

Caminhava estreito nas ruas de uma cidade que desconhecia. Eram estreitos seus planos, seus quereres, ambiguidades: pão, água, calor, e… Algo que não sabia o nome, que já não lembrava o quê, não sabia mais que esquina dobrar pra ressentir. Tinha jeito de deserto o que ele queria. Aparecia em sonho espada, abraço, e muito grito e choro e olhos de terror. Acordava sempre igual no meio do devaneio descanso: mãos no peito comprimindo a pele quase carne viva de tantas vezes repetidas.

Os olhos dos outros agora lhe eram pistas de quem um dia foi. Escorria entre as ruas sempre em fuga. Não sabia de quê. Mas não demorava mais de uma noite numa mesma quadra. Era escombro. Os ombros caídos sobre lugar onde escondia hora carne viva, hora cicatriz mal curada dos sonhos ruins.

A boca de sede só sabia dizer três palavras: pão, água, mar. Mar. Lembrança de infância que o mantinha colado ao mundo. Lembrava de quando criança não conhecer o mar e, uma vez diante do imenso mundo de água, dizer sussurro:

– mar…

O alívio do dia era chegar numa orla nova e juntar coisa e verbo:

– mar…

Moviam-se os músculos do rosto arrasado de vida. Quase um sorriso escapava de dentro. Quase era feliz ali diante de um ir e vir que imitava seus dias e noites entre uma esquina e outra da cidade. Em fuga. À procura. À espreita. Sob olhos de ódio dos outros, estes que ou o ignoravam ou não o entendiam.

Até que seu dia chegou. Uma outra. Uma de cabelos menores que os seus. Com olhos sem ódio. Um riso labial. E ele, que encarava o mar, se virou e paralisou de horror. Ela caminhava devagar em sua direção. Parou à sua frente. Tocou suas mãos com as dela. Ele suava. Era pedra. Tremia. Desceram lágrimas em sua face aguda. Ele olhou para as mãos dela tocando e levantando as dele. Até que ele lembrou e escapou o verbo de antes.

– amor…

Ela sorriu impossível e boa. Ele estatelou os olhos quando ela o libertou num abraço. As pernas desarmaram. Ele caiu. Morto.

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