Amem!

Era noite quando Aurelino Serafim foi tocado por algo mágico, divino. Seu corpo foi tomado por espasmos que pareciam convulsão. Seus olhos se reviravam com prenúncio de chuva que cobre de cinza todo azul, seu corpo tateou o chão por completo e suas articulações rangiam como vento forte em placas de metal. Dez minutos de devaneio que o impuseram a consciência do seu redimensionamento no mundo: iria profetizar o amor por aí, o próprio deus o ordenara no transe.

Rascunhou o plano num pedaço de cupom fiscal de tão simples que era, ensinaria as pessoas a amar. Partiu para ação. Se postou numa praça movimentada e começou a gritar. Mas praça é barulho vivo. De carro, de gente, de gente que ganha a vida na praça, tocando violão, virando estátua, vendendo amor a vinte reais. As pessoas não entendiam o amar, amor de verdade que só Aureliano conhecia e haveria de ensinar. Era pro bem do povo, era pro povo, gente cega sem entender que sentimento de verdade era aquele que Aureliano e os fariam engolir, por amor, por amar.

Contra todas as expectativas, ganhou seguidores e no correr dos dias, juntou dinheiro. A missão do coletivo era pregar o amor. No ônibus, na escola, na fila do cinema, na academia. O amor teria que entrar em moda. Todos deveriam amar e se amar. Lavagem cerebral. Pessoas de várias partes do país queriam ouvir sua palavra. Aprendeu a usar o rádio, a tv e a internet. Juntou legiões e virou político. O amor seria minuta, votação e lei.

Os que transgrediam? Partiu pra força física. Montou guerrilha para forçar o amor. Amem, AMEM, AMÉM¹. Torturou muitos, matou alguns partidários do ódio, requinte de crueldade era sua marca, mas era pra uma causa maior. “Por que as pessoas não seguem seu ensinamento?” Desses, sobrariam apenas tons de vermelhos quentes a escorrer pela calçada, pelas caras e sobre as moças, ele pintaria seu quadro de amor e fotos preto e brancas nos jornais. Mas era amor, mas era amar. Esse foi um feliz ano, não se sabe para quem, mas foi feliz².

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1 – Inspirado em Oração menor de Leo Coutinho;
2 – Iza Batista me deu de presente esse trecho.

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