{da coragem e outras invenções}

 

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O mundo inteiro gritando

– GUERRA!

– MATA!

– ESPANCA!

– ESFOLA!

Maria cantava, cantava, cantava às vezes quieta calada, às vezes de pulmões plenos como que expurgasse o desespero alcançando a garganta seca, os olhos cheios, a vontade plena de seguir serena beirava a queda.

Tinha os olhos cheios de ver fúria e horror. Vaidade e pouca verdade nas bocas de tanta gente sem saber o que fazer com tempo, com a agonia inundação de peitos inquietos, com a vida. Podia ser só isso tanta ameaça e escuro e xingaria cortando o ar.

Crianças cresciam à revelia. E aprendiam.

Aumentava o peso todos os dias ao sair à rua e gente – esgueirando esquinas, dobrando maldizeres, conspirando inquisições – se amontoando rua após outra em afazeres sórdidos. E sentia como se todas essas gentes olhassem para ela. Como se a engolissem com olhos de sangue e língua de sede. Como se a engolissem. Como se soubessem que dentro dela não havia espaço para a fúria da horda perdida, para soluções de faca amolada ensopando a cor da morte.

Aumentava o peso todos os dias sair à rua. Mas Maria seguia como quem não tem escolha, como quem escolhe, como quem recolhe a um canto escuro a covardia ameaçando por as unhas à forra.

Crianças cresciam à revelia. E aprendiam.

Maria cantava cada vez mais alto, cada vez como se a última vez, cada vez como se precisasse que a escutassem do outro lado do futuro que não sabe se vem. E por isso mesmo. E do outro lado das ruas que jamais andaria. Andava sozinha, Maria. Cada vez mais, ela achava.

Como quem desistia de se entregar, como quem negava o que era certo e dado e deposto, decidiu olhar os olhos de cada um, ainda que escutasse uma outra e vez mais também o mundo gritando mais perto

– GUERRA!

– MATA!

– ESPANCA!

– ESFOLA!

Para o espanto da mulher de metro e sessenta, o seu canto era o que causava olhos de medo e espanto e horror e espécie nos olhos das gentes-quase-bestas de conjurar soluções finais. Eram elas que, para seu absurdo, deitavam agora em temor quase pranto de implorar não faça mal. Muitos retornaram, depois de algum acostumar com o canto vento forte trovoada de Maria, ao de sempre

– GUERRA!

– MATA!

– ESPANCA!

– ESFOLA!

Mas Maria começou a ver que haviam, escondidos aqui e ali, atrás de uma porta, olhando de uma janela, misturada às cores de barracas de feira, olhos quase limpos de longe daquela fúria de horda severa. Havia gente que escutava e ressoava seu canto de

– SHHHHHH…

Crianças cresciam à revelia. E aprendiam.

Desmoronando armas gritos choros e exércitos em uma paz de fim de hora. Era ela quem ditava o rumo de seu passo, afinal. Seria ela também quem encontraria outros olhos com plenas coragens de não se abaixarem lassos miúdos inapeláveis, mas curvos certos de alcançarem caminhos outros que não os dados como únicos. Era ela dando adeus à quietude. Era um adeus nascendo no ninho das vontades. Era uma despedida ainda quieta.

Maria cantava, cantava, cantava às vezes quieta calada, às vezes de pulmões plenos como que expurgasse o desespero alcançando a garganta seca, os olhos cheios, a vontade plena de seguir serena beirava a queda.

Mas a coragem… A coragem guiava Maria.

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