Mil formas de adeus

Havia chorado um pouco, nada demais. Chorou o suficiente para o coração entender o fim. Ergueu a cabeça e se viu novamente homem, dono de seus passos, senhor de si, de olhos honestos e secos. Assim o pai lhe ensinou, assim tinha que ser. O vento quente soprava as ondas serenando seus cabelos, sempre embaraçados. Olhou em redor a madrugada na orla, reduto de bêbados, patifes e putas. Quase desnuda a sorrir maquiagem barata, uma das moças chegou junto dele, tocou-lhe destemida o rosto com a ponta dos dedos, insinuando a boca quase a adivinhar a sua:

– Achou, meu lindo!

-O que posso ter achado se nada eu procurava?

-Todo mundo procura algo mesmo que não saiba da busca, e você acabou de me achar.

-Parece que as putas dessas bandas estão metidas à filosofia…

-Todas nós temos muito a falar, a maioria que nos procuram que não quer ouvir. Nos limitamos então ao “escutar” e “fazer”.

-Eu não quero falar…

-Não precisa.

Puxou-lhe para um canto afastado entre as pedras, os dois mudos, ela conduzia. Ele de olhos fechados, o vento penteando-lhe inutilmente os cabelos. As mãos dela, experientes, certeiras, tiravam-lhe as últimas amarras do amor perdido, tão recente mas que agora parecia com uma lembrança pálida do passado. Era homem, era gente, era livre.

A umidade do ar: suor e gozo. Num delírio de orgasmo, nela pareciam habitar lulas, lagostins e peixes de diversas cores.

*Conto nascido do Gren, as palavras apenas encontraram minhas mãos.

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