Lama e gemido

No meio de lama e gemido, ergue-se a luz da manhã. Você se acha em pé, com os berros do alarme, mal sabendo como dormiu nem como acordou. Tem a cachola cheia e, porém, oca. Você se olha e supõe que não é o que vê, que não é coisa alguma. Há um nariz, olhos, uma boca, é claro, mas nada dessas coisas segue uma lógica. Nem mesmo uma expressão humana é o que me parece, longe dela. Longe dela é como venho vivendo, e é o nome dela que a mocidade desse domingo – os domingos e os seus silêncios que sublinham o vão da realidade – murmura em sua neblina: Branca. Tamanhas as memórias do passado que comprimem a alma, seria anormal se as lágrimas não me viessem abaixo. Branca, uma vida absurda e ociosa como a minha, correndo das chamas. Eu, arriado em cima de uma cadeira, descrido, saboreando-nos, uma mescla de sangue e amanhã, bebendo-nos a nós mesmos sem sede. Branca, que em verdade é morena, queria que conhecêssemos o mundo a pé. Branca, eu não posso… Eis-me arriado em cima de uma cadeira, descrido, compreende? Escrevo porque sou um desesperado! Escrevo porque o delírio e a caligem assim se perdem e caminho mais leve. Escrevo porque, escrevendo, a enxergo. Tudo renasce. A densa ramada do carvalho, o rio, espelho das nuvens, que escorre macio, o enxame de pássaros celebrando os raios encarnados do sol. Nosso coração abarcando o Tudo. Sem nenhum medo, vivíamos. Mas éramos apenas o sonho de alguém, de alguém que acabaria acordando.

E acordou.

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2 comentários sobre “Lama e gemido

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