#100 {em vão}

bordel#100

Tinham esse segredo enjaulado de não se chamarem pelos nomes. Apelidos, nomes falsos, grunhidos, tudo valia. Menos os nomes. Os nomes lhes conferiam uma autoridade sobre os outros, sobre o mundo, lhes separariam de outros braços, corpos largos, acanhados, atravessados em olhares esticados esquina após beco após rua. Sem saída.

Desde que se conheceram o mundo ao redor diminuíra.

Um dia azul de inverno frio ele ardeu de febre. Uma de nunca antes. Seus olhos deliravam paraísos desconhecidos, o peito cozinhava ideias, mentiras, poesias jamais imaginadas pelos sãos.
Dias depois, uma tarde quase solar, os prédios todos calados ao redor da vida deles, ele na febre que nunca mais sarava, levantou-se num susto que a derrubou no caminho, arregalou bem os olhos e variou entre o dizer quieto, o sussurro, a voz grave e o grito rasgado:

“Mau sonho, sombra de um sonho –
o de-sa-pa-re-cer aproximado.
Alma vazia de um vencido.
Tempo que só decorre errado.

No subsolo,
vazio e negrume,
insandeço e me acho,
sei que não voo onde todos vão e…
O Sol alumia os moídos,
os enviesados, os escarrados, os decaídos,
mas a mim não alcança…
Toda manhã
amanheço nuvem,
pesado,
e, embora o coração a seca comande,
a minha chuva nunca amansa.

No pescoço,
um nó.
Na alma,
doença.

Sobre meu corpo, nenhum alívio.
Mas o Sol alumia os moídos,
os enviesados, os escarrados, os decaídos,
pés descalços…

Aqui embaixo,
as horas
roem
vida,
ratos
roem
dedo.
Assim sendo,
dois algozes prum só homem…
meu deus preferido,
a quem devoto meu apelo?

E caiu, vibrando, tremendo, a cama ensopada de horror e suor de dias já daquele jeito. Ela o olhou consternada. Dali em diante ele jamais seria o mesmo. Dali em diante o fogo que o consumira em seu ataque fugiria pra sempre dos seus olhos, de suas mãos de antes, de seus risos já saindo. Ela padecia de um calor que já não caminhava no corpo dele.

Era à noite que mais se faziam falta. Pois era durante a noite, em segredo, que se deliciavam em abdicados encontros, jamais saciados um do outro. Agora o escurecer dos dias tinha gosto de saudade. Cada pedaço daquele quarto tinha o cheiro negro de quem outrora foi seu servo e senhor. O vento gelo do inverno assombrava o calor dos dias antigos. Reparou na cama de lençóis impecavelmente arrumados, sentiu-se só em meio a tanta organização. Calou o choro que ameaçava brotar mordendo dois dedos. Eram os mesmos dedos que, tempo antes, interrompiam fervorosos gemidos naquele mesmo lugar. A cara enfiada de lado no travesseiro permitia-lhe ver as duras e doces feições do seu homem em movimentos incalculáveis a lhe comer. O corpo torcido ao máximo, empinando os quadris de quatro, como ele gostava. As mãos dele sempre fortes, sempre certas, alternavam-se em gentis gestos a percorrer e espremer-lhe os seios, segurar firme sua cintura, enquanto com os dedos que iam de sua virilha à boca, apontavam-lhe o paraíso das noites de gozos desenhados por aquele membro duro e lindo, num vai-e-vem orquestrado em notas graves.

Nessas noites de falta, existissem mil luas, ainda seria escuro. Carecia do escuro dele, não daquele. Da língua rígida percorrendo cada espaço sinuoso. O jogo de domínio das fendas. A umidade evaporando no ar um cheiro de sexo e gemidos de precisar de mais. O quarto escorrendo nela, que parecia habitar as luas de lugares desconhecidos, olhos descortinando novas cores só por eles conhecidas.

Habitou lembranças por algum tempo. Habitou o passado como quem estivesse presa a uma vida que não estava mais ali.

Um dia abriu a porta e saiu. Sem levar nada. Ele agora são, chorou por cem dias e cem noites. Em vão.

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