Pisando em rachaduras

É simples e veloz. Você amanhece na hospedaria mais reles da cidade e acha uma camisinha boiando na privada. Você amanhece e não se vê honrado no espelho. Você amanhece e é o que vale. Pelado, corre ao boxe, ao banho, o chão apinhado de minhocas. As coisas são bem silenciosas. No assombro burro de um animal que cai em armadilha, que não sabe o que lhe ocorre, murcho, consumido, à caça do próprio rabo, a manhã rompe, como uma queda, do cimo pálido da hora, e desse modo morremos a nossa vida, pisando em rachaduras. Um edredom enrolado, papeis derramados aqui e ali, rascunhos de poemas mancos, uma enorme bacia emporcalhada de choro com sabão onde boiam bicos de cigarro. A menina ainda dorme, um dos seios, pequenino-moreno-lindo, escapulindo-lhe da camisola. Você a repara bem, na validade daquele segundo. A menina desaparece. Você a ama. E a vida marcha. Essa é a sua vida e ela sucumbe aos bocados. Agorinha mesmo, você caminha pelos becos, alegre, despreocupado. Em seguida, amigo, vira comida de nada. Somos seres-rumo-ao-nada, sim, e há coisas que só percebemos quando passam.

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