tempo, vento e outras deusas

“Só é possível vida dentro de sonho. Dentro da brevidade de um. Tudo o que existe assola a quietude. A quem interessar fossa, cabeças subterrâneas. O entendimento é uma fraude. A verdade caduca boca escancarada olhos duros na lâmpada que ilumina o muro quase branco numa rua onde ninguém passa.”

E ele da sacada da casa. Detestava essa palavra. Sacada. Parecia de um peso de cimento. Padecia de uma janela de abertura para outros sentidos que não o que de concreto é: um lugar para estar sem se deixar cair.

O vento ia. Voltava. Ia. Violava. Vestidos, incandescia vergonhas, exaltava vilas inteiras atrás de um silvo. Ia. Voltava. Violava.

E ele ali, sentado à beira do mundo como quem manda. Como quem cria tanto dentro de si, que o resto perde sentido, cor, tamanho. Tudo era miúdo do alto do lado de dentro, cujas pernas não adormeciam com a circulação trancafiada na altura das coxas apertadas contra a sacada. Sacada. Detestava.

Não queria dizer nada por um tempo longo. Tão escasso, o tempo. Tão pouco dentro de sua indefinição de infinitude. É? Sendo? Fora? Não era um deus qualquer. Não fazia chuva do alto da sacada, nem sentido, que fosse o tempo deus. Só podia ser deusa. Uma que retirasse do mundo a sacada.

A vida parecendo o martelo na parede em feriado morte. Esse dia ensaio de adeus. Tudo abaixo menor que ele, que dentro, que cabia… Tirava até o peso das costas de se imaginar. Os olhos fechados como em oração profana, respirava fundo, lento, as pernas num balanço sem pressa.

Esse dia ensaiando a morte. Quase calado, a não ser pelo martelo: seu carrasco sem nome, sem rosto, sem descanso, sem cansaço. Morte. Estar ali tudo tão certo, tão claro: o mundo abaixo e ele com os olhos de ontem, e um martelo assombrando a beleza do mundo pancada adentro. As porradas surdas vibrando a sacada. Que não era possível caber tanto mal em objeto de estar. Não era.

E o vento voltando arrependido. Invocação a coisa que descansa de existir, que se esconde de ser mundo, o vento. Levasse pra longe o prenúncio de morte repetido ao infinito pelo martelo, ganharia honras de deusa o vento. Mas era rebelde, inquieto, incapaz de qualquer negociação. Como o tempo.

Estava decidido. Apesar do inferno tentando engolir seu redor, governaria um desastre novo. Seria insular. O redor seria só nomes escritos dentro dele. Tem gente que padece de ser. Insular ou gente até.

Ah, se ela voltasse… Governaria tuas causas, teus desaforos, teus vestidos todos transparentes desgovernando o mundo enquanto ele assistia do alto. Faria falta a luz dela iluminando a rua.

A sacada estava morta. Ele de volta ao quarto, olhos pregados no teto. Seria insular, estava certo. O alívio veio em forma de sonho: silêncio.

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