Tardei no cais

Quando ele apalpa o violão, a minha viagem começa. Se não conhecem a sensação a que me vi dado e que descrevo nas linhas que se seguem, é uma pena. Talvez alguém me abençoou ou eu merecesse mesmo. Quando ele agride aquelas cordas, o meu mundo desaba. Primeiro, havia ele. Depois, havia o palco. O palco era a morada, era eu, uma moça amorosa e Chico – seu bichano. Éramos o palco sobre o qual seu som moía sem piedade, enchendo-nos, pela beleza, de dores e alegrias que depois seriam mais dores – as saudades. Éramos só nós ali, não por acaso. Acho que poucos compreenderiam aquelas suas expressões, para onde ele olhava, à medida que dedilhava, ou por quê. Tinha ao seu lado uma originalidade que raras pessoas desenvolvem. Ele coloca um Dó, um Ré, um Mi. Ele coloca vivacidade, calmaria. Fecho os olhos. Abro os olhos. A morada é uma canoa, Chico é bichano-papagaio. A moça é a luz da manhã, eu não sei quem sou e ele é o nosso guia. Torpor lúcido, o sono e a vigília, num sonho que é a sombra de um sonho. Boio na brisa e essa nova realidade nasce. Sonho e perco-me. Vou para o enigma dos acordes mais graves. Nosso anseio de céu além de nós, alado. A canoa se aconchega à vida empedrada, à carga e descarga do choro reprimido. Tardo no cais, a alvorada longínqua. Tempo que não sabe decorrer.

Às vezes, observo, como observou François Seurel em O Bosque Das Ilusões Perdidas, pelos becos pobres da cidade, descendo a rua preso pela polícia que havia apaziguado a briga, um casal que qualquer um consideraria alegre, unido. O escândalo rompe do nada, não se sabe quando, num sábado ou num domingo, por causa de ciúme ou alguma bobagem parecida. Todo o amor esquecido, despedaçado. O homem e a mulher em meio ao duelo de unhas e palmadas não são mais do que dois demônios deploráveis. Aí penso: ah, Deus, sei lá, sei lá se eles ouvissem aquela música, a música dele, que me embarcou num oceano bravio, a paixão volveria. Creio que sim, que esse seria o caminho. A música dele. A probabilidade vale a pena. Porque, após ouvi-la, ah, Deus, sei lá, sei lá o que será de mim, de nós, do cais…

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