olhos de céu e de chão {Maria}

Maria tinha os olhos de noite. Gostava do rastro que os aviões deixavam no céu do quintal de casa. Onde metia os pés sobre as tardes de todos os dias e torcia pra que viesse chuva. Pra que viesse aquele cheiro de chão cozinhando as entranhas. O rastro dos aviões causava um misto de agonia e segredo em Maria. Um terço rezado pra cada rastro que passava. Não se sabe ainda se pedia ou agradecia. Mas tinha qualquer traço de desespero, qualquer nota de saber de sua miudeza no mundo. Os aviões tão grandes, riscando o céu miúdos, e ela no chão quente do quintal ainda menor, quase nada.

Tinha os pés ligeiros, Maria.

– Essa menina um dia inda avoa! – dizia uma voz que misturava censura e admiração. Reprimenda e esperança. Maria entendia. Sorria com a boca quieta, que não era mesmo muito de falar, a menina de olhos grandes.

Sempre baixos, não eram olhos de medo, vontade ou ameaça, os olhos de Maria. Mirando o chão quente das ruas sem nome do vilarejo, eram olhos de engolir mundo, tempestade à beira, potência florescendo em silêncio. Maria tinha os olhos de noite.

Tudo que alcançava com as mãos, virava brinquedo. Lata, pedra, pau, papel de embrulhar. Tudo virava coisa de inventar os mundos que não conhecia. Era príncipe procurando um traço de terra pra suas cabras que falavam, era princesa morando sozinha numa cidade tão grande que fazia parecer nada o vilarejo. Fazia parecer Maria olhando pro rastro do avião o vilarejo olhando pra cidade da princesa.

Era “Maria” o nome das outras quatro irmãs, todas nascidas sob o sol de um pai rigoroso, pra dizer bem pouco do homem retangular que vigiava a todas como quem maquina escrever uma lei pra inventar os crimes que ainda não existiam.

Ela sofria guardando uma dor que ninguém conhecia. Na sombra morna de um juazeiro ela entregava ao vento suas confissões de dor. Quase se ouvia o seu lamento. Mas ninguém passava. Ninguém.

Chegara o tempo de casar, o de Maria. Contra seu gosto, pela vontade das coisas que eram assim mesmo. Antes de chegar o dia de conhecer o moço – seu pai murmurou era um polícia – Maria planejou a fuga. Pisaria a cidade com passos fundos, sua alforria. Com ela, só sua própria lei, só a bênção da mãe, só a sandália de usar na missa, os panos de cobrir tornozelos.

Juntou tudo, muito pouco, num alforje dado pela avó antes que Maria pudesse entender a serventia:

– Aqui cabe de um tudo que te basta.

Os trocados juntados ao longo dos anos não escapavam do limite de uma mão cheia. Esperou o pai resmungar porta afora na luz pequena do dia ainda menino; pediu a bênção à mãe mãos incrédulas de quem sempre soube chegaria esse dia; passou as mãos nos cabelos longos das irmãs mais novas chorosas; alcançou a cancela tremendo, suando, chorando a saudade que sentiria; olhou uma última vez pra família em fila na frente da casa que desalinhava o horizonte; sorriu de mentira, e pôs-se no caminho.

Depois de dois mil passos perdidos olhando o vestido cobrindo e descobrindo o chão, um rugido longo lhe tirou o torpor. Parou, tirou uma faca de dentro do alforje, mirou o pano na altura dos joelhos e saiu cortando de um lado a outro. Enxergou os joelhos ganhando sol, sorriu de verdade. Na primeira encruzilhada à vista, soluçou por não saber o caminho de ir. O céu tangeu a interrogação: o rastro de um avião apontou o caminho. Nasceu pra segurar as rédeas da própria vida, Maria.

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