manual para escrever nada

Quis contar uma estória em que acontecia nada. Saiu do quarto ao banheiro. Do banheiro à cozinha. Da cozinha ao quarto. E tudo que pensava era sobre a estória que queria contasse nada. Na varanda acumulava pilhas e pilhas de desistências antigas, malpassadas, desbotando alguma cor sem nome. Cultivava pendência com um regador que encontrou rua abaixo, nesses abandonos cotidianos de um dia chuvoso. Mas precisava. Queria. Se ressentia.

Quis ser caminho. Quis ser o corredor do andar de cima com a lâmpada nunca trocada. Onde não morava ninguém. Onde já mesmo o passado havia desocupado os imóveis. Onde o tempo já havia desistido de gastar as tintas. Quis ser o lugar para onde ia tudo que alguém um dia esquecera de contar pro seu amor da vida dos últimos anos. E dos próximos. Quis ser a cama onde se deitam aquelas coisas importantíssimas que antes de nascerem à boca de algum menino inquieto, morreram de esquecimento. Quis ser o embaixo da cama que engoliu todos os brinquedos de quem não tinha muitos. Quis ser o que se escuta quando ninguém diz nada, mas nem se avizinha ao silêncio. Quis ser multidão sem nome. Se isso deixasse contar a estória onde nada acontecia. Quis.

Ali da varanda, quis ser o poste em pé no meio de um terreno vazio. Ligado a nada. Sol e chuva e vento e pedras desligando as luzes. Quis ser a casa em que ninguém moraria e, sim, morreria de amores por alguém que não nasceria. Acenderia velas pelos filhos que não teria. E havia de sofrer. Muito. Jamais. Onde quis tanto. Na beira do nunca. Estava ali afinal. À beira de cúmulos e cúmulos de quem dera; de passos firmes de gente que bateu a porta, mas não era. Quis tanto. Quis ser engano. Quis ser as ligações recebidas no número errado. Quis tanto que acendeu um cigarro. E apagou antes do primeiro trago. Praticava o quase à avela. Bastava um sopro quente de chuva que troveja longe, relampeia branca, cheira forte e desaparece. Quis.

A sala vazava dia. E a madrugada nem sequer se fora. Estava ali. Sonhando em ser as cartas entregues em destinatários que jamais as leriam. Sonhando ser as respostas que nunca vieram. Sentou no parapeito, pés para fora. Quis só contar uma estória em que acontecia nada. Ninguém leria.

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