Quando o Big Bang ocorreu

Tô cansado, morena. Só carrego a saudade e o peso de haver sem você. Parece que, aos poucos, morre um pedaço de mim. Quero um sorriso sincero, um abraço para aliviar minha pena, sim? A prisão é seca; nem supõe como. Sonhar conosco é o que dá vida ao quadro da paixão, que penduro na parede das mais doces memórias. Memórias que me submergem. E é delicioso quando me engolem essas ondas. E é delicioso demais quando me enche de música, uma música que começa sem começo, que se acaba sem causa, como o voo de um pássaro – viva Vinicius de Moraes – numa aurora de novos sons, novas experiências. Tenho um pouco de ciúme daquele seu piano. Seus dedos o machucam e o descansam, os mesmos que, uma vez, arranhavam e acariciavam meu couro… Uma coisa eu lhe asseguro: eles são lindos. Têm qualquer coisa que enlouquecem. Era passarem por meu corpo e eu, de bobo, caía na risada. Tempos que não reaparecem. Ah, Jesus do céu, daria uma mão para vê-los de novo! Te enxergo na quadra do cárcere, de quando em quando, de verdade. Enlouqueço a cada hora cá. Teu cheiro passeia pelos corredores, caça-me, absorve. Fecho os olhos. Cerro os punhos. Perco-me das demais pessoas. Trepamos no calabouço, nós dois naquele chiqueiro. Nus em meio à poeira dos anos. Suspiros velozes e demorados. Um raio risca o céu escuro. Fogo derramando água em redemoinho. Nossos suores que se apoderam dos poros e colam almas. Toda a minha boca vibrando no eco das suas pernas douradas, meu abismo, um caminho sem desvios para Deus. Toda ela no côncavo e no convexo. Nuvens e rendas e bordados. Tudo maluquice da cabeça. Tô maluco, morena. Porque creio mesmo que nós nos conhecemos desde sempre, compreende? Quando o Big Bang ocorreu, as moléculas no universo achavam-se comprimidas, esmagadas em uma pequena mancha que explodiu. Naquela hora, nossos corpúsculos, que viviam como um só, separaram-se, perderam-se pelas eras. Porque creio mesmo que nós nos parecemos. Minhas moléculas sempre amaram as suas. Elas combinam. Nasceram do mesmo cerne, saíram da mesma vagina dos mundos. Conheço você desde sempre, sim. E só agora nos achamos.[1] Sairei logo da cela – é promessa. Dança comigo numa sala de reboco?

 

[1] Teoria que roubei da película I Origins, do Mike Cahill. O que me levou à cadeia.

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2 comentários sobre “Quando o Big Bang ocorreu

  1. Eu sempre soube, sempre vi, te vi crescendo e cresci te vendo, e mais que isso, te vi te lendo. Que texto maravilhoso! Estou cada dia mais encantada. Essa sua amiga te observa de longe, mas se orgulha de cada palavra, linha.
    Ainda tenho aqueles versos que me deste, e salvei comigo com suas letras, mas salvarei seu texto com as minhas se me permitir. Espero que continue me encantando, saudades Victor!
    De Nanda do Projeção, da sua vizinha

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