Chorir

20.04.15

 

Acho que o que escreverei agora virará algo para o cinema. Veja bem, ó, minha agenda de ideias. Tem essa loja de roupas supimpas próxima a minha casa. Duas moças lá compravam. Quero que a chamemos Ada e Geralda. Penso em dividir a cena em dois quadros, onde as coisas possam ocorrer em sincronia.

No primeiro quadro, Ada só ri. Zomba de qualquer coisa. Nas mãos carrega dezenas de sacolas – cheias de calçados e vazio. Jogava um bocado de casacos de zebra e oncinha no balcão, quando abre a bolsa e vê que nela não há mais uma moeda sequer. Uma queda vagarosa no abismo e boom! Ela cora. Esperneia-se no chão. Ri como uma louca. Acha-se sozinha. Anda a esmo pelo espaço. Alisam o cabelo os dedos velozes.

No segundo quadro, Geralda só chora. Geme por qualquer coisa. Nas mãos carrega um enroupado negro – seu marido havia morrido e carecia de um pano honroso para usar no velório. Uma sombra severa sobre a alma. Colocava as dores no balcão, quando abre a bolsa e vê que se esqueceu do cheque. Uma queda vagarosa no abismo e boom! Ela cora, mas a dona do comércio releva e deixa que pague depois. Chora de novo. Acha-se abraçada. Seus rins doem da urgência do amor.

Ada e Geralda. Tão díspares! Mas bem que seriam bons versos, hein? Ada / Geralda. Linhas separadas de um mesmo poema… É por causa de uma perda amorosa que Geralda murcha. Perdeu alguém crucial em sua vida. Ada, porém, não sabe o que cessou. Não perdeu ninguém. Talvez, perdeu a vida vivida. Perdeu desde uma vez que encheu a cara obrigada pelos amigos, desde que chupou um cara sem querer. Perdeu-se de si. Aí não sei o que é mais lógico: a zombaria da primeira ou o berreiro da segunda. Rir e chorar não são iguais? Rir, na verdade, mais parece é uma maneira absurda de choro. O riso de Ada veio na ocasião em que excedeu os demais modos de gemer e, porque suas lágrimas secaram, nada lhe sobrou senão o deboche. A hilaridade supera o escárnio, alcança e revela a visão da miséria humana. Ada ri sob a mesma razão pela qual chora Geralda. Melhorando: as duas choram, cada uma a seu modo. As duas expõem os corriqueiros problemas de ESTAR no mundo: PRE CA RI E DA DE – IN COM PLE TU DE – ME DO.

Acho que o que escrevi agora virará algo para o cinema. Só que… Sei lá. Ando rindo demais, sabe? É uma árida melancolia… Acho que deixarei isso assim mesmo, guardado em você, ó, minha agenda de ideias. Curiosidade: vários caras gagás da Grécia criam que a desolação viria a ser uma benção, após algum período. Para mim ele não chegou ainda. A amargura aparece dura ao nos dispormos a esse regime, e somos condenados a não produzirmos nenhuma boa ação. Faz séculos que não escrevo, por exemplo. Só escrevo agora, de verdade, pois quero me curar dessa merda, dos meus problemas. Sei lá. Sairei um pouco. Gandaia e algumas cachacinhas. Sei lá. Sem melancolia não há alegria.

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